BRANCA MARIA DE PAULA
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DUAS MANEIRAS DE SER FELIZ

Esquizofrenizou-se às seis horas da tarde ao som da Ave-Maria, quando uns anjos lhe disseram que largasse tudo e fosse pro convento seduzir a pequena Flor-de-Liz, enquanto outros aconselharam que ela se dirigisse imediatamente ao shopping mais próximo e comprasse lingerie de cor vermelha - aquela com abertura coincidente com as aberturas de nascimento - e subisse lá pros altos da Avenida Afonso Pena que aí sim, ela estaria perto do céu.
Então Marilene deu dois passos pra frente, dois pra trás e ficou paralisada, ouvindo as vozes cada vez mais perto. 
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PÉTALA POR PÉTALA
Imersa na escuridão, a casa dorme.
Eu, não.
Longe, sussurrante, abafada, a chuva. A chuva fina e o vento rolando folhas.
Há milênios nenhuma fresta de luz perturba o recinto, qual intocado sarcófago.
A morte dentro da morte dentro da morte dentro da morte. É isso. É assim.
Cada coisa em seu lugar: quatro cadeiras ali, na parede o sonho do poeta, pote de cristal, colares, pedras, frascos de perfume, frutas, uma mesa a 45º e a porta fechada.
Tudo isso sei de cor. Há milênios.
Mas sei também que um botão de rosa, lenta e silenciosamente, desabrocha na escuridão. 
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O ENFORCADO
A rua sobe em curvas pela montanha, em busca de ar fresco e horizontes abertos. Procura uma paisagem singular, distante dos prédios espremidos no miolo da cidade.
Cheia de flor e passarinho, a rua transpira sossego. Alguns gatos pulam de quintal em quintal, desafiando os muros altos.
A brisa da manhã sopra um friozinho bobo, que é melhor ignorar. Mesmo assim, o pé de madressilva estremece.
Um cão raivoso assusta os colegiais, que passam de mochila às costas.
Ninguém vê o corpo que oscila, na varanda da frente do moderno sobrado.

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A DEUSA 

Comeu-o com muito gosto, estalando a língua e gemendo de prazer. Mas não o fez de maneira selvagem. Ao contrário, foi bastante cortês.
Comeu-o aos poucos, com requinte e sabedoria. Dispôs igualmente de todas as partes, sem rejeitar nenhum ossinho, por miúdo que fosse. Aproveitou tudo tudo, inclusive os dedos dos pés.
Sugou primeiro os lábios carnudos, suspirando delicado.
Quando mordiscava o lombo, gemeu alto. Ao chupar a coxa, quase perdeu a compostura.
Perdeu a compostura ao lamber as partes tenras. Sacrificou-o em grande estilo, arrancando-lhe as vísceras sem sombra de culpa ou tardio remorso. Mas o momento de gozo ela viveu ao devorar-lhe a cabeça.
Ele perdeu a pele, as carnes, ficou nu por fora e por dentro. E ela não teve dó. Arrebatara seu coração. Enfim. 

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Poema



REVELAÇÃO
 

Tenho-te agora entre as pernas
Como um anjo caído das alturas.
Nas dobras, nas sobras
Nos poros, nos cantos
Tenho-te agora
Ainda mais fundo.
Em trégua, suspiro e gozo
Dormes
O sono justo.
Tenho-te agora
Como se fôssemos eternos.