GIZELDA MORAIS
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NOTAS SOBRE ROMANCES, POESIAS e outras obras..

JANE BRASIL (1986) - "A solidão, o medo, a angústia constituem a atmosfera deste denso/tenso romance, centrado no eu, em que a personagem, autora de sua própria história, vai narrando os fatos que se vão sucedendo, às vezes em tom surrealista, na busca de uma verdade sem peias ou limitações."  (Ofenísia Freire - escritora)

Jane Brasil, de Gizelda Morais (edição J. Andrade, Aracaju, 1986, 79 páginas). Trata-se de um romance curto, com apenas três capítulos, onde se entrelaçam ficção e realidade. Através de um monólogo, a personagem – narradora se reconstrói, percorrendo caminhos de lembranças, num processo caótico e fragmento como é, sempre, o da evocação. Livro intimista, verdadeiro mergulho introspectivo, nele a autora atinge o fundo do poço, à procura de um sentido para o absurdo da existência. Ao refletir sobre a incomunicabilidade humana, Jane Brasil luta pela emersão, que a faça atingir a liberdade. E é essa luta silenciosa e sem testemunha, que a faz perseguir o amor, como a única forma possível de sair de si mesma: “É incrível que eu esteja só numa cidade tão grande. Eu deveria estourar com uma bomba essas portas, janelas fechadas e gritar, para o povo que fale, que não deixe sua voz abafada pelo ruído dos motores. A voz que escuto não fala para mim, a face que vejo não me vê. Estou diante de um vídeo: o homem que aparece não é meu amigo, não me conhece. Pus minha melhor roupa e escovei meus cabelos, contava encontrar alguém que me dissesse “bom dia” .
Nada feito, meu dia foi de novo vazio. Subi de elevador, toquei a campainha cheia de confiança, mas a pessoa que me atendeu não me recebeu. Sua face crispada convidou-me a sentar e com os olhos desejou que eu saísse logo. Sentei-me dois minutos e disse uma mentira qualquer. Enfim me levantei e desci pela escada, de cabeça baixa. Na porta do edifício estava o vigia. Não o cumprimentei e talvez fosse o único a me responder com um sorriso”.
Assim escreve Gizelda Morais. Assim é Jane Brasil: um livro divagante, que todavia, não se perde em hermetismo e muito menos se contorce, evasivamente, em acrobatismo vanguardistas. (Maria de Lourdes Hortas - escritora e poeta portuguesa, publicado em jornal de Recife,  dezembro de 1987).

IBIRADIÔ (1ª ed. 1990) - "O enredo é desenvolvido em plano objetivo duplo: o histórico e o contemporâneo, na tentativa de reconstruir acontecimentos de um passado longínquo, a partir de um enfoque crítico atualizado. Há em notável esforço de carpintaria literária, sobretudo pela forma como a autora narra e recria mundos íntimos polarizados, reveladores dos vôos e quedas da alma humana."  (Jackson da Silva Lima, crítico literário) 
"Livro polêmico, de angústia e revolta, de um grande amor pela justiça e pela humanidade." (Marie-Geneviève Rivault, escritora francesa).
2ª ed. 2003, Scortecci Ed. Incluído no Programa de Leituras para oVestibular da UFS (2004-06).
"Ibiradiô inclui-se dentro da literatura brasileira, dizemos sem medo de errar (apesar da falta de reconhecimento da elite Rio-São Paulo), como um poderoso romance da conquista colonial do Brasil, passando-se em Sergipe.
Jornal da Cidade, Aracaju ,10 e 11 de dezembro de 2006. CELIO NUNES, Jornalista e contista.
Traduzido para o francês e  publicado, com o mesmo título pelas Éditions du Petit Véhicule,Nantes (Fr),1999.

PREPAREM OS AGOGÔS (1º ed.1996) - Menção Honrosa no concurso Nacional de Romance, governo do Paraná, 1994. Perseguindo insistentemente a descoberta de algumas verdades, no emaranhado de interpretações diferenciadas que cercam as vidas humanas, quando os atores dos dramas e tragédias não se encontram mais em cena, o personagem central desse romance traz para o Brasil do presente, com os seus problemas sociais, os dramas da escravidão no século XIX. 
2ª ed. 2007, Scortecci Ed. 
Incluído no Programa de Leituras para oVestibular da UFS (2007-09).
Traduzido para o francês e publicado pela Editora L' Harmattan, Paris, 2009.

ABSOLVO E CONDENO (2000) - Menção Especial entre os prêmios concedidos pela União Brasileira de Escritores, 2002. 
“Absolvo e Condeno” é outra empolgante novela de Gizelda Morais. Até os 65 anos, o juiz passa a vida dirigindo audiências e prolatando sentenças, com a cabeça cheia de doutrina civil e brocados romanos, afogado em um oceano de papel impresso materializado em pilhas de processos. É um homem ou uma múmia? Vai a um congresso em Lima, capital do Peru, onde conhece uma garota japonesa de 19 anos que está ali estudando espanhol, por quem se apaixona e com quem vive os melhores dias de sua vida. De volta ao Brasil e com a garota retornando ao Japão, estabelece o magistrado uma intensa correspondência com sua menininha, em que as mensagens eletrônicas enviadas ao Oriente ocupam agora o primeiro plano das atividades do juiz, com efeitos literários impressionantes, enquanto se sucedem as imaginárias, oníricas e envolventes aparições da ninfa asiática no dia-a-dia do brasileiro apaixonado. Essa dinâmica demonstra nas páginas do belo romance que são ilimitados os poderes ficcionais da escritora sergipana e que ela é uma mestra no conduzir o leitor nas trilhas montanhosas da mais consistente literatura. Após esse interlúdio original, insólito e resplandecente, o protagonista leva sua paixão às últimas conseqüências e voa para a cidade de Akiko, a fim de passar a entrada do novo ano e o mês de janeiro com ela. Mas antes de ver sua Paixão o homem é confundido com um homônimo, que é um traficante de drogas procurado pela polícia, sendo preso em seu lugar. A partir de então o romance progride em um clima de angústia e dramaticidade, sugerindo ao leitor que o prodigioso idílio da primeira parte é seguido agora de desespero e dor, ou seja, o protagonista afinal desperta para o sentido da existência, que está em Akiko. Mesmo assim acaba preso em um labirinto que não tem saída, como se a brilhante novela de Gizelda Morais estivesse permeada de uma pátina camusseana que anuncia a ilusão da absolvição e o peso inevitável da condenação.
Divulgar os romances de Gizelda Morais é uma arrebatadora  celebração da arte e da vida. Sua literatura é densa, no sentido da integração de cada página no conjunto da novela, dando ao leitor a sensação de estar lidando com uma substância viva, sedutora e envolvente. Cada romance de Gizelda Morais é uma estrutura completamente diferente dos outros que escreveu, uma concepção nova e original de novela." 
Ezequiel Monteiro , jornalista e contista, Jornal da Cidade, domingo e segunda, 9 e 10 de setembro de 2007. Aracaju –Se.

FELIZ AVENTUREIRO (2001) - Especial do Júri, entre os prêmios concedidos pela União Brasileira de Escritores, 2002. 
"É um livro que faz pensar, a reflexão filosófica a dominar o leitor incauto, a trama, a nervura básica do seu grande romance." (Mário Cabral, jornalista e escritor).

"Passei os três últimos dias envolvido na leitura de “Feliz Aventureiro”, o quinto romance de Gizelda Morais. A vida de Alberto Cedrón, artista plástico argentino, é uma série de irruptivas aventuras induzidas pelo acaso, em profundo contraste com a organização e racionalidade que condicionam a existência da imensa maioria das pessoas. O mal do mundo é a lógica. O singular zingarismo do pintor platino o envolve em peripécias no Alto Xingu, nos Andes venezuelanos, em Barcelona, Paris, Roma e tantas outras cidades deste continente sul-americano e da Europa, sempre em busca da afirmação artística e da mulher definitiva que chegam e vão embora. Essa descontinuidade da vida do protagonista contém um forte apelo existencialista e torna Cedrón um consistente herói dramático, principalmente quando se considera o pano de fundo do romance, que são os pesados anos de chumbo da Argentina e em vários outros países da América do Sul. Metade da família do personagem central é destruída no cárcere e na tortura. Cada fuga para uma nova cidade, cada tentativa de projeção artística, cada envolvimento com uma nova mulher acaba sempre reconduzindo o protagonista ao ponto zero, como no mito de Sísifo. Por outro lado, acompanhando as aventuras deflagradas no périplo do andarilho, o livro penetra na intimidade de cada metrópole sul-americana e européia, a partir de Buenos Aires, tocando em sua alma.
O ritmo veloz, a objetividade e desenvoltura da narrativa – desenhando novas situações, descrevendo cenas, desencadeando diálogos e comentando temas incidentes – tornam “Feliz Aventureiro” um romance original e inovador. As técnicas ficcionais que a escritora Gizelda Morais emprega em seu quinto romance refogem às fórmulas tradicionais e criam um clima de frescor, de novidade, de inovação literária, imprimindo uma intensa claridade ao texto. A carpintaria do romance é madura, equilibrada e brilhante, em grande parte porque a autora não é uma neófita em literatura; já no início dos anos 60 estava consagrada em Aracaju por seu vigoroso talento poético. Literatura não se improvisa; por mais talentoso que seja o escritor, precisa ler e escrever incessantemente até que a arte literária lhe conte os seus segredos, mostrando e engrandecendo o escritor. O literólogo Jackson da Silva Lima tem toda a razão: Gizelda Morais é uma mestra do romance e, nesse gênero hegemônico da literatura, uma das mais promissoras escritoras do Brasil. 
Jornal da Cidade, terça-feira, 28 de agosto de 2007 .Aracaju –Se.
Ezequiel Monteiro, jornalista e escritor 

A PROCURA DE JANE (2010)
"Como vai senhora?
Eu não a conheço, mas com respeito
Peço licença para conversar
Permita antes me apresentar:
Apenas uma anônima sem instrução
Mas que lhe escreve com o coração
Este seu livro tão encantador
São versos livres, sem regras métricas
Quando o abri, quando o li
A erupção se revelou
A lava amada não se acaba
É uma enxurrada de muito amor
É um bumerangue, idas e vindas
Pontos de partida, pra recomeçar
Página virada, alma marcada
Mais bem disposta a enfrentar a dor
Procura respostas, ninguém revela
Não sabem nada sobre sua cor
Mas é coragem, é uma viagem
Remédio certo, futuro incerto
Pimenta ardida, bem resolvida
Mas o que esperar dessa confusão?
Se cai, levanta, não quer chorar
Só quer apenas saber quem é
É cata-vento? Claro que não!
Só pode ser: JANE EMOÇÃO! "
  (Adriana dos Santos Pereira - setembro de 2010.)

VELEIRO DA ESPERANÇA
"O pano de fundo do Veleiro da Esperança é a Ditadura de Franco nos anos quarenta e a fuga de uma família em particular, entre tantas outras, para não cair no cutelo do carrasco algoz. No reconto romanceado do êxodo, acontecido de fato, Gisela Morais procurou ouvir pessoas remanescentes dessa mesma família, misturando a ficção à realidade. Uma pequena embarcação reformada parte das Ilhas Canárias, abarrotada de gente fugitiva, sem as mí-nimas condições de enfrentar as turbulências de uma viagem oceânica: o destino final era a Venezuela."
"Em resumo, a fabulação múltipla serve de orquestração unificadora das diversas vozes ou focos narrativos no raconto da epopéia marítima, e dos acidentes de percurso como aconteceu em Dakar, onde a têmpera humana é posta em desafio contra a fúria dos elementos adversos, muito acima do limite de resistência da tripulação fugitiva, especialmente as mulheres mais velhas, mães e avós, que se transformaram em numes protetores da própria prole desgarrada. Mesmo antes da partida e do périplo navegatório romancea-do, até sua chegada às plagas brasileiras, o Veleiro da Esperança teve em Gizelda Morais uma timoneira audaz, que soube, com maestria, dosar a realidade com forte sensibilidade imaginativa, escalando mais um degrau no ofício de romancista moderna que é. (Jackson da Silva Lima  - Historiador e crítico literário }.


SOBRE A POESIA:
ROSA NO TEMPO. "A poesia gizeldiana não tem recebido os mesmos holofotes que têm se voltado para sua prosa. Furtando a metáfora bíblica, podemos dizer que se trata de um "tesouro escondido". E foi, justamente, na poesia a estréia literária de GM. "Rosa do Tempo", o primeiro livro de versos foi seguido por "Acaso", "Baladas do Inútil Silêncio", "Verde Outono" e mais recentemente "Rosa no Tempo" (Scortecci, 2003). No dizer da própria autora, esta última é uma edição de "poesia quase completa", tendo em vista que essa é uma coletânea de "alguns poemas da adolescência e outros tantos da maturidade", nos quais, devemos ressaltar, sedimenta-se a mesma densidade poética. "Rosa no Tempo" impressiona pela força das imagens construídas entrelaçadas em incomuns e sensíveis metáforas que nos seduzem no derramar dos versos e num raro burilar no reino das palavras em que Gizelda Morais nos prova que "o tempo é o gesto/ e o espaço um pedaço de pão". (Trecho de artigo do escritor Wagner Lemos no Jornal da Cidade, Aju, 2007).

ROSA NO TEMPO é um livro que chama de imediato a atenção pela capa de intenso vermelho dissolvido no negro. E, depois, vem a calma dos poemas, da palavra lançada na folha, junto com outras, todas vivas, falantes, conscientes do próprio poder-palavra.
O poema Partida para o eterno chove na alma. Chora a inexatidão e o vazio de significado da palavra-susto perante o signo da morte, “a eterna viagem / eterna eternidade”.
Coloquei a poesia para dormir enquanto o sol se escondia, acalentei-a pelas estradas, dentro de um ônibus. E você pede silêncio, velando o sono da noite que dorme em poemas chorosos e latentes. Latejam no seu Poema as palavras descobertas, nuas, bandeiras.
Precisamos ler Gizelda para descobrir que temos liberdades paradoxais de ouvir e de calar, de construir presídios, de destruir escolas, de trancar crianças, de deixá-las famintas enquanto luxamos, pecamos, cantamos e até lemos poemas. Tudo ao mesmo tempo em que a Natureza, revoltada em liberdades paradoxais, contrai o vírus da modernidade e do capitalismo, desmancha geleiras, seca rios, abala o solo, anuvia a atmosfera.
Quem diria melhor o que é o homem e o que é o mundo a não ser o poeta? No vai-e-vem da vida, “o mundo é o mesmo / o homem não; “o homem é o mundo / e o mundo não”
Senhora poeta, o mundo é cão, por isto zomba, finge, faz a menina chorar, pois “há uma dor e uma pena / e retratos de mortos nas paredes”.
Os retratos dos mortos na parede tentam com seus olhares indefiníveis avisar que um dia morreremos também numa parede qualquer. O olhar dos mortos na parede achou, enfim, um lugar para se afogar e “se afogou nos olhos dela”.
A vida promove encontros e desencontros, até chegar o dia da clarividência. Possa cada um notar, nesse dia, a humana dimensão e concluir: “tenho uma roupa esquisita / e uns olhos de praça morta”.
Escritora Tânia Meneses
Publicado no Recanto das Letras (Internet) em 24/05/2008
Código do texto: T1003288

Sobre
RELATO BIOGRÀFICO– Dom Luciano Cabral Duarte – . Aracaju: Gráfica Editora J. Andrade, 2008. 520 p.
“A prosa inteligente e elegante de Gizelda Morais nos dá a conhecer a vida de uma das mais importantes figuras da cena sergipana da segunda metade do século XX. O intelectual, o religioso, o homem da ação social, o influente conselheiro da educação são por ela apresentados de forma a que tenhamos em D. Luciano Duarte uma síntese de um importante período da História de Sergipe. A autora consegue ultrapassar a mera biografia afetiva e laudatória, para compor um trabalho de pesquisa fino e denso que, se contempla e toca les choses du coeur, não deixa de ser um grande repertório e fonte de alimentação para futuros trabalhos em torno de Sergipe, do Brasil e América Latina) intelectual, religioso, político e social.”
Edmilson Menezes, Doutor em Filosofia e Professor Universitário.

                                                            TEXTOS

JANE BRASIL ( Início do primeiro capítulo)

Fui expelida, quando tinha exatamente nove meses de plantada no útero. Só por isso não me formei entre merdas, mas logo depois eu estaria cheia delas e elas seriam um pouco de mim por toda vida. Isto não é uma confissão, é um protesto. Um protesto contra mim mesma por ter nascido sem saber de nada e só ter aprendido a andar de cabeça baixa.
Cresci entre homens e mulheres e mesmo assim não os conheço. Não os vejo despidos de suas roupas, nem de suas atitudes condicionadas. Minha língua está cheia de saliva e não sei abraçar os que de mim se acercam. Não culpo nem desculpo ninguém por tudo isto. A mim coube me fazer o que sou agora, e sempre, e todos temos o que merecemos, apesar de nos terem surrado com varas de marmelo.

IBIRADIÔ (Cap. Retrocesso 16. ... o triste regresso).

Não gostaria mais de lhes falar dessa marcha da volta a Salvador, tão diferente da vinda. Se sacrifício houvera na primeira, maior era a confiança e a alegria, a tudo eu descobrindo como novidades no caminho. Agora era tão distante o horizonte do mar de Santo Antônio que, no começo de cada dia de jornada, pensava, não iria ter mais fim. Se no roteiro do governador toparam com nativos, de certo foram todos pegos, pois entre nós não foi pouco o trabalho de socorrer os naturais. Em diversos momentos, aqui um senhor, ali um capitão, e até um soldado, tentaram tomar como escravo para si um homem, uma mulher, uma criança. Uma noite, um fato desse tipo aconteceu e quase saiu pelo contrário.
Um colono que fora na companhia do governador e com o nosso grupo voltava, tentou com um dos soldados, às escondidas, amarrar e separar uma meia dúzia dos aprisionados. Calcularam mal as suas forças, pois, nessa empreitada, Paritigi, um dos cobiçados, encontrou um jeito de agarrar o homem e ameaçá-lo com a sua própria faca. Daí disse ao colono que ordenasse ao soldado de libertar os outros senão ele o mataria. O soldado obedeceu e os soltou. Logo os dois foram amarrados até que, atraídos pelo barulho, chegaram outros soldados e cercaram os naturais. Paritigi manteve a faca na garganta do senhor e disse que o mataria se não os deixassem ir embora. Nisso chega o capitão. Este, ao ver a cena, corre à procura do padre Gaspar a lhe pedir que resolvesse essa contenda, pois se o homem fosse morto não garantia mais pela vida de qualquer um deles. Aproveitou também o padre e disse que resolveria, se prometesse ele, o capitão, não permitir mais tais abusos; que não maltratassem aqueles infelizes, pois, por ordem do governador, eram eles devidos às aldeias jesuítas. Logo, se insistissem haveria de saber el-rei Dom Sebastião, e até o papa, se preciso fosse, de tão grandes agravos e mentiras. Aceita a condição, padre Gaspar rogou a Paritigi que relaxasse o homem, falando-lhe das promessas havidas na conversa com o capitão.
No dia seguinte foi a vez de tentar dissuadir da morte o Indiaroba. Recusava-se a comer desde o início daquela caminhada e já estava fraco. Ao amanhecer, na hora de retomar a marcha, disse ele não querer mais viver. Padre Gaspar foi convencê-lo dizendo dali não se afastaria até que ele se decidisse a ir também. Implorou Indiaroba que o deixassem morrer, porém o padre lhe falou mais de uma hora sobre o pecado da soberbia e do suicídio. E por fim pegou-o pelos braços e fez menção de carregá-lo em suas costas. Nisso caiu, e com ele Indiaroba. O padre numa crise de tosse se contorcia, Indiaroba chorava baixinho, em volta deles silêncio absoluto, como se estivessem respeitando dois gigantes no chão.

– Encontro-me num impasse. Há três dias não escrevo. Não consigo fazer a ligação entre a primeira e a segunda parte.
– É que você é muito obsessivo, Cristóvão. No início foi a busca desesperada para localizar com exatidão as aldeias de São Tomé, Santo Ignácio, São Paulo, o acampamento dos portugueses. Eu sabia que seria impossível. Aqui não ficou pedra sobre pedra; não houve castelos como aquele construído pelo Garcia d'Ávila em parte ainda de pé, lá na Praia do Forte em Salvador. Aqui tudo foi feito de paus e palhas e isto o fogo e o vento levaram.
– O que me impressiona, Gaspar, não é ter sido tudo arrasado, mas o fato de não restar sequer uma tradição popular, uma história contada de pai a filho, de tia a sobrinha, uma cantiga de roda, uma lenda sobre o povo de qualquer uma dessas aldeias.
– Espero que agora você não se volte à procura obsessiva do local da primeira povoação e da segunda, ambas nomeadas de São Cristóvão. A gente só sabe mesmo onde está a terceira porque ainda permanece no lugar.
– Não, acho que sei onde foi construída a primeira. Tem um bairro novo em cima, lá em Aracaju.
– Deixa de bancar o Sherlock. Olhe, tenho aqui uma coisa interessante, fruto de nossa excursão de ontem, além, é claro, do pneu furado, como resultado das péssimas condições das estradas. Veja estas fotos daqueles dois adolescentes que brincavam nus, nas pedras, à margem da cachoeira. Uma verdadeira cena primitiva. Poderia ter sido tema de um quadro de l575. É raro! Eles têm o tipo indígena, e aqui quase só se vê o mestiço do branco com o negro.
– Aliás, aí está um bonito lugar, Gaspar. Precisamos aproveitá-lo em nosso filme. Nenhuma passagem nos escritos da época menciona esta cachoeira. E é o ponto de estrangulamento na navegação pelo rio Real; marca a separação entre o doce e o salgado, a partir dali o mar não entra.


PREPAREM OS AGOGÔS ( início do primeiro capítulo -Soam Guizos):

Volto ao hotel. Difícil adormecer. Sobe a temperatura. Febre, talvez uma gripe. Tomo uma aspirina, ligo a televisão. Os olhos esbugalhados de Vicent Price andando pelos corredores de um castelo mal assombrado. Um livro se desfazendo em suas mãos, comido pelas traças. Espirros, pó, cal, poeira. – Quem disse, dr. Tomás, ser Gonzaga teu sobrenome? Por acaso atrás de tua pele branca não há um pouco mais de negritude?
O jantar na casa de meus anfitriões em Lagos se transformara num filme de horror. Histórias de séculos passados – na África a ganância, a escravidão, as lutas fratricidas. No Atlântico a travessia, os porões das galeras, bergantins, sumacas, faluchos, chalupas, brigues. No Brasil, as senzalas, os currais, os troncos, festas e quilombos. O retorno, o refluxo depois da abolição. A Nigéria dos ingleses.
Os fulas batendo os agogôs no ritmo dos pés, embaixo de grandes baobás. A boca abobalhada de Vicente Price na tela à luz de uma vela iluminando o longo corredor. Os hemisférios norte e sul se misturando num doido mapa astral. Música sacra, oitocentista, o Scala de Milão, vozes de Djavan, Milton Nascimento, Gilberto Gil. – Doutor, não te anunciaram o sucesso dos negros tanto quanto o dos brancos?
Eu, admirando minha pele clara se tornando intensamente negra, igual à das crianças sentadas em torno de um grande prato. Entôo, paparaô, papá oô, pápa oô oô, e avanço meu braço pra pegar um bocado. Recebo uma palmada. Uma menina recolhe o alimento e oferece. A mãe come diretamente nessa mão supina. A filha inclina a cabeça e recebe a sua parte. Todos podem comer, menos eu, um rejeitado. Meu braço continua suspenso. Com os olhos comprimidos observo, e choro. Então a mãe me oferece o peito e me vejo paparicando no seio dessa negra que se fartara na mão da filha adolescente. 

ABSOLVO E CONDENO. (Início do primeiro capítulo)

O sono treme nas pálpebras de Vicent Price, tremem minhas pálpebras, as mãos deixam cair o castiçal, o lápis, a pena. Ça suffit! Ça suffit! Ah, ah, ah. O grito ecoando nas paredes do castelo, nas paredes do quarto do hotel.
Abro bem os olhos. Benzo-me três vezes. Medo? Do fundo da infância e da adolescência surge o gesto automático. O sinal da cruz, começando da testa até o tórax e de um ombro ao outro. Tento exorcizar os sonhos maus, afastar gnomos escondidos por detrás das portas, almas penadas, fantasmas reivindicando seus desejos.
De novo a sensação de desequilíbrio, a necessidade de apoio e segurança, intensamente ressentida em várias ocasiões, como no término do casamento.
Pego o telefone. Falar urgentemente com Marli. A chamada não se completa. Desço às pressas. O vigia dorme na portaria, ronca numa cadeira estreita, suas nádegas sobrando pelos lados livres das bordas. Sonha, na certa, e segura as chaves no bolso da calça. O aparelho na recepção, trancado com um cadeado, não envia mensagens.
Como uma agulha atravessando a carne de um ponto a outro, preparando a costura, vê enfiada no peito uma caneta negra. Vai entrar em pânico. Puxa-a. Não dói, não sangra. É um feixe de células sem alma, sem espírito. Abre os olhos, uma réstia de luz penetra pela fresta da janela. Um leito estreito, um quarto estranho, odores desconhecidos emanados das paredes, dos lençóis, dos travesseiros. Ensaia se levantar. Uma dor lancinante traspassa suas costas da cintura ao pescoço. Abafa o grito. Sua cabeça roda sob um teto aparentemente móvel. Sente o corpo paralisado, pesado, inerte, pregado sobre o leito.
Não, não está morto, só não reconhece este lugar. Não é o seu quarto, sua sala, não é seu gabinete, o vestíbulo do Fórum, o salão dos julgamentos. Onde está? Felizmente também não é um túmulo. Seus olhos ansiosos, no esforço do reconhecimento, pairam sobre o calendário pregado na parede, 10 de julho de 1999. Faltam poucos meses para o início do ano dois mil. Fora justamente essa pressão do tempo que o empurrara para aquele lugar. Vê a sua caneta ali ao lado, sobre a folha de papel em branco. Não a enfiara no seu peito. Adormecera antes de escrever a primeira palavra, o título de sua história. Sentara-se na cama com a caneta na mão. Uma hora de busca, alisando o queixo, assanhando os cabelos não lhe trouxeram a palavra, o cerne, o sentido, o núcleo com o qual definiria a sua própria vida. Andara pelo quarto até as duas da madrugada e tombara no leito, até o sobressalto.
Agora sim, recupera a sua identidade. Sabe quem é, sabe onde está. Respira, relaxa, tenta encaixar corretamente o tronco sobre os ossos da bacia. Vê uma formiga caminhando em desespero, ziguezagueando, afogando-se nos pêlos espessos de seu braço. Esmaga-a. Vinha disso, na certa, o desconforto, a inquietação, o coça-coça nas costas e nos braços. Percebe um som de flauta, vindo de fora e de dentro, um som de eras, como heras subindo nas paredes, invadindo tudo. Tinha um compromisso? Sim, tinha um compromisso, por isso tocara o seu despertador. Não iria vestir seu terno escuro, apertar a gravata, calçar as meias e os sapatos escovados, mas, de qualquer maneira, era um compromisso 

FELIZ AVENTUREIRO ( Início do primriro capítulo)

Um clima de paixões, ciúmes, traições, amores, vilanias emana do interior da caverna figurada na tela. As pupilas da visitante se dilatam. Tropeça no busto de uma Vênus sem ca-belos, cavas sem olhos, espreitando diretamente da superfície do cére¬bro. Envolve-se, penetra nos meandros das tintas, mis-tura-se nas cores fortes, nas figuras de homens e mulheres de eras desconhecidas. São as telas da série Subterrâneos. Cada uma delas representa uma cena, como no teatro. Os persona-gens vão desfilando no subsolo da terra, saindo das camadas inferiores do subconsciente do artista. São seres concretos e imaginários, antigos e modernos.
O homem, à luz fraca dessa manhã de julho, ofega den-tro de seu corpo atarracado. — A vida é assim, passado e fu-turo só existem na nossa cabeça, menina. A visitante levanta os olhos. Embora a tintura de seus cabe¬los lhe esconda as marcas da idade, sabe, está longe de me¬recer aquele tratamen-to. Desconhece o detalhe da recente convivência do artista com os portugueses que o leva a substituir o brasileiro senho-rita pelo carinhoso tratamento de menina. Desvia o seu olhar para um grosso volume de jornais pousado sobre a mesa. Na página aberta, a foto do rapaz lembra o ar misterioso do jovem Marlon Brando — Alberto Cedrón ex¬põe pinturas e ce-râmicas. A data do jornal trinta anos mais velha, a foto do artista trinta anos mais novo. 

A PROCURA DE JANE  (trecho do Cap. 1)

Foi uma fagulha o tempo da lembrança, minutos ou segundos? No bojo frio da nave, o vizinho ressona. Os fones continuam firmes em seus ouvidos, mas em vez da prancheta, ele agora segura um ursinho de pelúcia. A telinha da TV, iluminada, mostra cenas não vistas. Um vácuo violento desperta o belo adormecido. Dão-se de cara, olhos nos olhos. Ela estremece, ante as feições do artista que, outrora, desenhara seu rosto. Houvera mesmo algum pintor naquela praia deserta, numa cálida tarde de verão, ou tudo não passara de projeção de seus desejos? Se fosse o seu retrato por que o outro não lhe deu a folha de papel com o desenho?
O rapaz tira o seu chapéu de Mickey Mouse, passa a mão pelos cabelos, boceja, abre largo sorriso. Que palhaçada! Que será mesmo esse “largo sorriso” de que tanto gostam os literatos? Como saber se é riso, choro, rito ou grito? Escritores falam de sorrisos negros, vermelhos, amarelos, até de sorrisos verdes, expressando esperanças ou revelando os militantes do Partido Verde. E enquanto o outro explica ser aquele ursinho presente para a namorada, ela já não o escuta. Seus olhos vão se fechando, os lábios sem controle vão se abrindo. Já não agüenta o peso de tantas vidas na própria cabeça, computador de grande envergadura pousado sobre fino pescoço. Tomba, definitivamente. Entra no enorme continente de sua inconsciência onde dormem os resquícios de sua ancestralidade. Nessa descida de séculos, vê-se na boca de um caldeirão de ouro incandescente, passa à nave de três pontas sobrevoando a terra, daí à proa de navio a vapor do século passado, soltando fumaça, navegando pelo maior rio do mundo. As águas negras juntam-se às barrentas, o rio corre tranqüilo procurando a entrada, a porta, a boca do oceano. Escurece, o que é de cor torna-se negro. De repente, só restam sombras escuras naquela superfície. Em que século vive? Em qual embarcação navega? Teria sido amarada no porão da chalupa, faminta, fedendo, a pele estropiada, rangendo os dentes, tremendo de frio e de calor ao mesmo tempo? Atravessara o oceano inteiro, da Costa da África à do Brasil, ou apenas descera norte-sul, em linha reta, pelo mesmo oceano em direção às galés? Fosse como fosse, aquela tinha sido a primeira grande viagem, quando uma de suas ancestrais, pegada à força, a boca amordaçada abafando o grito, as pernas hirtas, a célula inicial em sua primitiva forma entrando, vermezinho, esperma em meio aquático, rolando de um túnel para outro, desembocando em lugar desconhecido. Ratos pelos cantos eram seus parentes, o novo ser ainda não sabia. Tinham em muitos pontos as emoções parecidas, a sensibilidade, a fome, o sono, a vontade de fuçar, de explorar o porão inteiro. Ainda não se via como homem ou mulher, naquele embate entre agressor e vítima, opressor e submisso, usurpador e usurpado. Pelos cantos dos olhos inexistentes, vê os sacos de farelo de trigo, os porcos mortos, grãos e insetos, frutos apodrecidos, alguns sacos de sal, nenhum de açúcar, escravos, ratos, vermes, germes, todos no banquete da fome, aparando as migalhas da grande mesa. Olha as mãos em seu projeto, são brancas, mas as paredes do ventre da matriz são negras. Quer sair, faz esforço para desistir, quer expulsar-se. É um simples nada, nadando contra a corrente, agarrando-se às paredes de minúsculo óvulo que esconde a natureza da humanidade inteira.
E da preexistência faz-se a existência. Acomoda-se por não ter outro jeito. Agora é tomar forma. A quem cabe decidir em cada célula a forma definitiva, a cor da menina dos olhos, dos cabelos, a maciez dos dedos, a tessitura das cordas do coração, a espessura da árvore do pulmão, a consistência do fígado, a natureza do sexo, o falo ou a vagina, a entrada ou a saída? Como ente faminto por fazer-se, constrói um cordão para sugar o ar, o oxigênio, a clorofila transformada das plantas, os parcos alimentos que sustentam a matriz, arrancando-lhe dos ossos, dos dentes, das unhas, o cálcio para fazer os seus. Da substância do sangue arquiteta o plasma, a carne, a pele e tudo mais de que o corpo é composto, escondendo em cada célula as possibilidades ganhas pelos séculos dos séculos, desde a origem da água e do barro, da mistura e da separação, do lodo e do limo, até a conjunção carnal, apressando o processo de criação, a fantasia. 

VELEIRO DA ESPERANÇA (pequenos trechos do cap 1)

Chego ao número da casa desejado. Ansiosa, diante de uma porta fechada, toco a campainha.
Minha sobrinha? Tio Miguel?
O breve olhar mútuo de observação é interrompido pelo abraço caloroso e a sensação de ouvir as batidas aceleradas dos corações. Estou muito feliz, menina, em recebê-la em minha morada, e que os anjos do céu a abençoem em sua peregrinação. Abrindo espaço na porta para me deixar entrar, toma-me pela mão e eu o sigo em silêncio, ele me conduzindo ao sofá, junto à sua cadeira de balanço. Não, ele não é magro nem parece tão alto tanto quanto meu pai; a sua barba branca e a bata alva, bem passada, dão-me a impressão de um conselheiro, um guru, um eremita. Ele se senta, olha-me agora com curiosidade como se procurasse os sinais de minha pertinência à sua família. Eu escuto. É, minha sobrinha, nunca pensei que viesse a receber em minha casa a visita da filha de Pablito, uma menina bonita e disposta a atravessar desertos em busca de seus desígnios; nisto saiu ao pai. Seus olhos brilhando e o leve sorriso de contentamento dão-me a certeza de uma boa acolhida. O receio da rejeição logo se esvai e a conversa começa a fluir naturalmente, como se já nos conhecêssemos de longa data (pp 7-8)

Além da irmãzinha, eram três as mulheres: a mamãe, a vovó Concepción e a mulher do timoneiro que também embarcou com os filhos, dois adolescentes, gêmeos, quase da mesma idade minha, entre doze e treze anos. As crianças eram o seu tio Fred e a sua tia Ina. O Juan tinha uns dez pra onze anos e já queria se passar por homem. Pablo, seu pai, com dezesseis, colocou-se, desde o início, entre os adultos. Quando aquela tempestade se anunciou, as mulheres, encolhidas, rezavam, soluçavam e protegiam os menores. O mastro começou a vergar. O barco adernando, a qualquer hora poderia virar completamente. Ficamos à mercê das ondas, da fúria do oceano, tirando, continuamente, água do veleiro. Foi preciso remendar de qualquer jeito ali mesmo, no meio do mar. Pablito, a pretexto de salvar a vela mestra, quis agir como herói e terminou derrubado. Sofreu cortes na testa, engoliu água salgada e o resto da travessia passou tinindo de febre e frio. Não sei como agüentou. Pablito parecia se sentir responsável por todos nós nessa travessia. Como o primo Javier, próxima à sua idade, ficara em Dakar, ele queria assumir tudo sozinho. Já era magro, foi virando um caniço. (pp 12-13)