ANTONIELLA DEVANIER
PORTUGUÊS
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SOLIDÃO SOLIDEZINHA
Marcelo aproveitou-se da distração de Iara para sair de casa. Na rua, a terra ainda estava molhada da chuva que caiu durante toda a madrugada. No bolso, o pião de madeira que o pai lhe deu, quando ainda moravam na roça, em Cansanção. O garoto sentia falta do pai morto num acidente de carro, logo quando se mudou para a cidade. Ele acreditava que esse homem tão carinhoso morava agora na lua e sabia que hoje a nave espacial iria atingi-la. Assim, correu mais rapidamente em direção a casa do primo. Tiago estava no quintal, em cima de um pé de goiaba e Marcelo chegou perto da nave. Ele não viu o primo escondido lá em cima: estava surpreso com a máquina e os botões feitos de caroço de feijão.
Iara tornou-se uma puta depois que o pai de Marcelo morreu, já em Salvador. Durante o dia, ela ficava em casa, naquele bairro afastado. Quando a lua chegava, ia até o centro e seguia para a Ladeira da Montanha, num ônibus, mas sempre retornava para cuidar do filho e da casa- era a única das meninas que possuía uma pequena casa, herança do falecido. Sentia-se tão triste, mas recuperava-se quando via o brilho nos olhos de Marcelo, garoto saudável e carinhoso.
Nesta manhã, Iara abandonou as atividades domésticas e foi procurar pelo filho por toda a rua Maravilha. Achou que Marcelo estivesse no campinho de futebol, no final da rua, olhando aqueles malandros que ficam jogando bola, mas nos intervalos vão fumar baseado, ao lado de um pé de jaca. Iara proibiu o filho de ir até lá, pois não gostava da turma mal encarada e drogada... Enganou-se, porém, encontrando no local os mesmos garotos de sempre.
Neste momento, Marcelo já apertava o caroço maior e dava partida. Era a primeira viagem espacial. Os olhos vermelhos eram estimulados pela mudança de pressão, em função da nova órbita em que se encontrava. Ao puxar o cabo de vassoura, a nave dirigia-se ao satélite mais bonito que já conhecera, era tudo mágico e os seus pés já não estavam firmes. Sentia como se flutuassem como todas as estrelas em sua volta. A sensação infantil de que tudo mudaria com esta viagem resultou num sorriso e os dentes pequenos de Marcelo estavam finalmente visíveis.
Ao lado do campinho de futebol, Henrique aproxima-se de Iara, com a mão no bolso e um cigarro de palha na boca:
— E aí putinha, veio procurar macho. Então está no lugar certo. Segurando no braço de Iara, ele tenta passar a mão em suas pernas. Iara o empurra e com raiva dispara o veneno:
— Não vejo nenhum macho aqui!!
Henrique coloca o dedo entre os seios de Iara e avisa:
— Hoje, eu quero ouvir você dizendo ao meu ouvido que eu sou um homem muito gostoso, pois estarei na Ladeira da Montanha... Vou gastar dinheiro, mas vou saber o que esta vaca tem para se sentir tão poderosa.
Iara saiu chorando. Não agüentava mais aquela vida. Foi para casa com uma esperança de encontrar o filho no quarto e olhar aquele brilho nos seus olhos, mas ao chegar: nada. Jogou-se na cama e recomeçou a chorar. Quando chegou a hora do almoço, Iara pensou em perdoar Marcelo e levá-lo para almoçar com as economias que fizera, percebeu porém, que o garoto ainda não se encontrava em casa. Resolveu, então, procurá-lo novamente. Foi até a casa da irmã e encontrou Tiago no Quintal:
— Tiago, você viu Marcelo hoje ?
— Oi tia. Disse Tiago, parando de comer uma goiaba.
— Onde está o Marcelo???
— Ele está aí dentro da nave espacial. Ontem, ele me contou que iria buscar o pai na lua.
Iara, com um sorriso nos lábios, sentiu-se aliviada e abriu a porta do brinquedo feito de ferro e madeira.
Lá dentro, uma cadeira enferrujada e um cabo de vassoura enfiado no chão de terra. Iara olhou para Tiago e gritou:
— Onde está o meu filho???
— Deve de ter ido para a lua...
— Não brinca. Isto é sério. Já está na hora do almoço. Você não disse que ele estava aqui?
— Eu disse que ele entrou e queria ir até a lua.
— Você viu quando ele saiu daqui?
— Ele não saiu.
— Como não saiu ???
— Estou dizendo, tia. Ele entrou e não saiu. Eu estou aqui o tempo todo e tenho certeza de que ele não saiu.
Iara estava com raiva da mentira de Tiago. Não se faz isto com coração de mãe. Derrubou a lataria e foi embora. Quando chegou em casa, não teve ânimo para comer, passou a tarde esperando o filho e rezando. A noite chegou e com a escuridão, toda a solidão de Iara. Neste horário, o filho já estaria dormindo e ela começaria a colocar a saia preta justa, o perfume espanta-negrinha e a maquiagem. Se não fosse, não poderia mais freqüentar a casa de D. Maria e nunca iria trazer os clientes para sua casa, perto da irmã e do filho. Olhou-se no espelho e começou a colocar o batom.
Tiago passou a tarde chorando porque a tia destruiu a nave espacial e o primo poderia não voltar para a terra. Chorava e ia consertando o brinquedo e pensando em Marcelo. Já estava tudo escuro quando finalmente via tudo no lugar: os caroços de feijão, a cadeira enferrujada, o plástico que servia para olhar as coisas lá fora... Ficou esperando meia hora e rezando para o primo retornar contando como foi a viagem, mas Marcelo não retornava. Neste instante, Iara apareceu pela primeira vez na frente do sobrinho vestida como uma menina da D. Maria, perguntou pelo filho e observou a geringonça construída novamente no quintal. Andou em direção à engenhoca.. Tiago ficou nervoso pensando que a tia iria destruir tudo novamente. Mas, Iara apenas abriu a porta e olhou para a cadeira vazia.
Tiago foi dormir com uma ponta de esperança no coração. Ele sonhou com a lua e as estrelas e com o pai de Marcelo.
Iara chega na casa da D. Maria e já encontra Henrique, com o mesmo cigarro de palha entre os dentes e o mesmo sorriso amarelo, achando-se vitorioso. D. Maria foi logo avisando para Iara: ___ ele pagou o dobro, por isso quero serviço demorado.
Foi a noite mais escura da vida de Iara. Ela trabalhava e rezava para o filho encontrar a lua e o pai e levá-la dali para um lugar cheio de astros cintilantes.
Quando amanheceu, Iara chegou em casa e encontrou o velho João na porta. Ele estava mais velho e magro, mas ainda usava aquele antigo chapéu de sertanejo na cabeça. Iara olhou envergonhada para o pai. Se não fosse esse homem, ela não teria completado o primeiro grau, em Cansanção. Ela entrou e desejou encontrar o filho, na casa, mas Marcelo não estava. O velho João, sem força na voz, pediu para Iara vender a casa e voltar para a roça, perto de Cansanção, apesar da seca e da fome. Ela e Marcelo poderiam ajudá-lo a plantar milho e abrir cisternas para armazenar água. Neste instante, o velho sentiu a ausência do neto. Iara disse que ele estava brincando numa nave construída no quintal, juntamente com Tiago.
Eles foram até a casa de Judite, irmã de Iara. Tiago acordou com o barulho da tia e do avô. Lembrou-se do primo e foi correndo até o fundo da casa. Os olhos de Tiago estavam fixos na nave espacial... O velho João encostou-se na nave que brilhava, fez o gesto de que iria abrir a porta e, neste ínterim, Tiago olhou para a tia: ambos estavam chorando, com medo do pior.
O velho João gritou:
— Meu neto querido!!!!
Tiago e Iara, perplexos, ousaram caminhar em direção a nave e lá estava Marcelo, com os olhos ainda vermelhos e a mão no cabo de vassoura. Levantou-se da cadeira enferrujada e abraçou o avô. No bolso, umas pedras... Ele não poderia deixar de visitar a lua... um dia, vai construir uma nave maior e levar a mãe para olhar as estrelas e conversar com o pai.