LUCY MITIKO NAKAMURA
PORTUGUÊS
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ZEZITO
(Lucy Nakamura, 12/07/2011)




FRAQUEZAS. 
(LUCY NAKAMURA) 
02/06/2011

No mundo, não deveria haver espaço para a mentira, para a dissimulação, para a hipocrisia... Porque elas levam ao desvio de caráter. Mas hoje é tão comum a inversão de valores, provocando o caos da convivência humana.
O hipócrita que constrói uma imagem de vidro não consegue andar de cabeça erguida, isso é resultante do seu constante medo de ser desmascarado a qualquer momento... Essa falta de liberdade é a condenação que os dissimulados estipulam para si mesmos... O medo constante de ser questionado... O pavor constante de ver sua falsa imagem maculada diante de sua verdadeira identidade...
Os que se acostumam a mentir sofrem do próprio mal: com o tempo, ninguém mais acredita em sua palavra. Apenas o próprio dissimulado acredita em suas próprias mentiras. Quem opta em construir uma vida feita de mentiras, insiste em parecer ser aquilo que não é, sua frase passa a ser: faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço. Como um dissimulado consegue usar a palavra de Deus? Como orar diante daquele que tudo vê, que tudo sabe? Mentir para os homens é fácil, mas diante de Deus... seria possível enganar a própria consciência???
O dissimulado trilha o caminho do descrédito, da falta de dignidade, dos erros. Quem opta em semear os erros, perde o foco, perde a firmeza de caráter. Se depois dos dezoito anos de idade, o ser humano ainda não distingue o certo do errado, é porque já optou pela fraqueza, pelo caminho fácil da dissimulação, passar a vida convivendo com as desculpas esfarrapadas, apenas para desfrutar das baixezas torpes e inúteis...
Aquele que escolhe para si o mundo baixo, das fraquezas, onde tudo o que é errado é normal, onde a devassidão não é questionada, optou pelos prazeres mundanos, porque nesse mundo baixo ele não é questionado, e isso lhe dá a falsa impressão de que não há culpas, todas as desculpas são aceitas e ninguém irá lhe cobrar nada... Que Deus tenha piedade desses infelizes.
Mas, aquele que opta pela vida em elevação, do mundo superior, mais rígido, mais difícil, constrói uma firmeza de caráter para viver no mundo digno, feliz, pleno. Um homem assim passa a ser um exemplo a ser seguido: é inimaginável vê-lo enganando os que o amam. Nem é possível pensar na possibilidade de vê-lo magoando-os, ou trocando os momentos com a família para ir ao boteco, ir às jogatinas, às bebedeiras, envolvendo-se com outras mulheres, sendo adúltero, ou mesmo indo a festas mas dizendo que está indo ao culto, ou transformando seu carro em quarto de motel nas festinhas do rancho, festinhas de solteiros... A sua firmeza de caráter lhe dá a felicidade plena de que o ser humano precisa para viver bem. Ele entra e sai de qualquer lugar com a cabeça erguida e é admirado por ser o que parece ser e o que realmente é...
Sempre precisamos ser sinceros conosco e com o próximo. Um nome não se desfaz e não se constrói da noite para o dia. Um bom nome de família ressoa afirmativamente por pelo menos duas gerações vindouras, e isso é muito bom. Entretanto, na mão contrária, o dissimulado, por mais que se esforce a manter uma imagem de vidro de pé, jamais terá êxito em evitar suas rachaduras e até sua queda. O nome se faz através dos caminhos que realmente trilhamos ao longo de nossas vidas, e não através de meras palavras lançadas ao vento, sempre negando tudo, sempre alegando inocência... meu Deus, até onde vai a dissimulação, a hipocrisia... Os mentirosos se acostumam tanto a mentir, que saem do mundo real e passam a acreditar nas próprias mentiras, nas próprias ilusões... Pobres coitados... Que Deus tenha piedade desses infelizes...
Os que MENTEM perdem a DIGNIDADE e isso leva à decadência física e moral. Os mentirosos perdem a coragem de erguer a cabeça diante da família, porque deixam de ser um exemplo. Perdem a dignidade diante da palavra de Deus, porque não agem como pregam. Não podem ter uma vida social normal, porque andam cabisbaixos, afinal, podem ser flagrados em sua hipocrisia a qualquer momento. É triste...
Vale a pena??? Estes, quando se tornarem velhos lobos infelizes, solitários e repugnantes, talvez reconheçam, olhando para trás, o quanto seu comportamento maléfico magoou os que o amaram ao longo da vida, e talvez reconheça a dor alheia que semeou em sua estrada afora... E perguntar-se-á: o que realmente valeu a pena? E nesse momento perceberá que por várias vezes Deus lhe deu a oportunidade, qualidades, possibilidades de elevar-se, chances a escolher pelo caminho do bem... mas, o fraco tudo desperdiçou quando optou pelo caminho mais fácil e vil, pois no primeiro obstáculo ele desistiu de batalhar e todas as boas possibilidades assim se esvaíram...


A CIGARRA CANTADEIRA.
(Lucy Nakamura)

28/08/2010

“Na cidadezinha do leste de Mato Grosso do Sul chamada Três Lagoas, em meados da década de 1980, no antigo bairro Feijão Queimado onde se fixaram as famílias dos ferroviários, havia uma casinha branca, simples, em meio a um quintal escuro dominado por uma frondosa mangueira, era possível ver a janela que reluzia em meio ao breu, pois as lâmpadas da sala estavam acesas.
Era início de noite, que começava a amansar o terrível calor. O ar estava dominado pelo cheirinho das flores de manga, aquele ar seco pela falta de chuva, porque já havia dois meses que as águas do céu teimavam em não cair, o que tornava o calor insuportável e o ar pesado, seco, poeirento. E aquela luz atraente, vinda daquela janela em meio a aquele breu... O céu estava lindamente estrelado... De vez em quando as folhas da mangueira farfalhavam numa brisa quente e fraca.
Da janela foi possível ver a sala iluminada daquela casinha pobre, cheirosa, o chão vermelho encerado, as telhas vermelhas aparentes já que não havia laje e nem forro, os poucos móveis limpos. De repente, a porta também se abriu, a mulher apressada saiu e rapidamente recolheu as roupas do varal e voltou para a sala.
Mariana colocou as roupas do seu bebê sobre a mesa para passá-las e o ferro elétrico já estava ligado, esquentando. O bebê rechonchudo dormia tranquilamente no quarto ao lado e à vista da mãe atenta, pois os cômodos da casinha alugada eram muito pequenos e isso favorecia a tranqüilidade de Mariana, que poderia aproveitar para passar as roupas do bebê, sempre de olho em seu filhote.
Mariana era órfã, estudou pouco, trabalhou muito, muito, muito... Quando conheceu João, ela se reconheceu nele, e ele se reconheceu no sofrimento dela, no mesmo trabalho pesado, nas mesmas mãos calejadas e uniram-se, e conseguiram sorrir, sentiram-se acalentados. E Deus também sorriu a eles, João conseguiu engajar-se num novo trabalho na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, conseguiu alugar a casinha de joão-de-barro e tiveram o primeiro filho, a quem dariam tudo nessa vida, para que tivesse uma vida diferente.
Era noite, aquela luz reluzente da janela, o cheirinho da flor de manga, o ar quente e seco... Mariana passava roupa, sentia uma alegria imensa nas pequenas coisas, só de ver tanta roupinha de seu filho estendidas no varal, cheirosas, limpinhas. Fazia questão de lavar uma a uma no tanque de concreto, esfregava cada fralda de pano, estendia tudo no varal com uma ternura inexplicável. Agora passava cada peça com extremo cuidado. Eis que, subitamente, uma cigarra cantadeira atraída pelo clarão da lâmpada, entra voando pela janela, numa cena rápida, Mariana é pega de surpresa, e a cigarra entra em sua boca. Ambas, desesperadas, tentando sair daquele susto. Por fim, a cigarra saiu ferida e Maria despedaçada, lavando a boca centenas de vezes no tanque de concreto, mas passado o susto, riu, riu, riu.
Seu bebê assustou-se com a barulheira da sala, mas a mãe logo o acalentou com a única música que ela sabia cantar de sua infância: mãezinha, querida, eu não sei rezar, eu só sei dizer que eu quero te amar... O fofucho dormindo sorriu como quem sonha com os anjos, suspirou, e aquietou-se novamente.
O pai trabalhava dia e noite, atravessando os lugares com a locomotiva, assistia a cada partida e cada chegada do trem, pessoas que vão, pessoas que vêm. E a cada volta ao lar era um arrepio de felicidade, presentes, novas mobílias, novos abraços, mas a cada partida novas lágrimas e a espera pelo próximo retorno. Mas o trem do pantanal foi, numa dessas viagens, foi interrompido por um terrível acidente e o pai partiu para sempre. E Mariana não conseguia entender o porquê de tantos, sustos, castigos, alegrias tão efêmeras.
O bebê, alheio a tudo isso, cresceu, engatinhou, andou, brincou à sombra da mangueira, caçou ovos de lagartixa nas cercas de madeira que dividiam os quintais, aprendeu a apanhar manga do pé com uma vara de bambu enorme com uma latinha amarrada na ponta, para que a fruta estivesse intacta, sem os amassados das que caem no chão, e adorava soltar pipa no terreno baldio com outros meninos.
Ele começou a observar a cigarra cantadeira quando sua mãe lhe contou que um dia quase engolira uma. A cigarra tinha o corpinho gordinho, verde, asas transparentes muito eficientes, patas com garras para prender-se ao tronco da mangueira ou para fazer cócegas na palma da mão, olhos esbugalhados e saltados, e um canto quase irritante, porque debaixo da mangueira elas cantam em coro, dezenas de cigarras cantadeiras cantando juntas. Mas o mais interessante foi descobrir que elas são efêmeras, como tudo o que é incrível na vida e na morte. Elas se fortalecem no subterrâneo, secam agarradas no tronco da árvore, a mutação que a permite voar é rápida. As crianças iam recolhendo uma a uma para depois contar quantas cigarras cantadeiras não cantavam mais. A brevidade da existência da cigarra cantadeira faz parte daquela perfeição da natureza, como a vida, como tudo.


Pãe, filhos e netos...
(Lucy Nakamura)


Maria Madalena chegava aos seus 60 anos de idade, morando com suas três filhas solteironas, além de ter sempre por perto os dois filhos casados, que escaparam da vida de solteiro após muita persistência. Maria Madalena era um misto daquela mulher submissa de sua época (similar à mãe do Caso do Vestido, de Drummond), com a mulher de transição do séc. XXI, uma pãe, mistura de pai e mãe.
Traumatizada pelo fato de ter sido abandonada pelo marido há mais de duas décadas, Maria Madalena fazia questão de expressar a sua repugnância pelo sexo oposto. E fazia questão de repetir, todo santo dia, todas as dificuldades que enfrentara para criar os cinco filhos, sozinha e com dignidade, exacerbando a velada chantagem emocional sobre sua prole, como um meio de manter total controle sobre a família.
Sendo filha de imigrantes e tendo recebido uma educação rígida e quase xenófoba, Maria Madalena se recusava a ser receptiva com as amizades dos filhos: coisa de escola deveria ser resolvida na escola, coisa do trabalho deveria ser resolvida no trabalho, e ninguém deveria trazer esses assuntos para dentro de casa, a casa era sagrada, só da família. Dessa maneira, os filhos nunca conseguiam manter os laços de amizade com ninguém. Maria Madalena se sentia a própria deusa do destino de todos. Será?...
A primeira filha, Mariana, dotada de uma inteligência fora do comum, sempre se destacava na escola. Mesmo quando precisou trabalhar durante o dia e estudar à noite para ajudar a mãe a sustentar a casa, Mariana continuou se destacando. Mas Maria Madalena nunca comparecia aos eventos que homenageavam Mariana, ao contrário, logo tratou de se mostrar indiferente, como um iceberg. Mariana terminou o curso universitário, passou num concurso público e, a partir daí, passou a ser o principal pilar da casa, com a responsabilidade de acatar a todas as vontades de sua mãe, pois, sensível, era incapaz de impor suas próprias idéias para afrontar a mãe. Quando surgiu o primeiro amor de sua vida, viu-se obrigada a abrir mão dele, pois ao saber do fato, Maria Madalena imediatamente adoeceu e só se restabeleceu quando a filha desistiu daquela ideia descabida. A vida de Mariana não via as cores da primavera, seu cotidiano era só trabalhar e voltar pra casa, o seu único orgulho era saber que todos os seus irmãos precisavam de seu apoio.
A segunda filha Aninha foi a que mais sofreu com a ausência do pai. Por isso, apegou-se à mãe de forma incondicional. Era feliz com todas as regras impostas por Maria Madalena. E sentimentalmente, nunca deu trabalho à mãe, pois não se interessava por ninguém, tinha poucas amizades, não saía para se distrair, estudava e trabalhava, e se ocupava com todos os afazeres da casa nos momentos de descanso. Tamanha pureza era o retrato de um ser quase assexuado.
A terceira filha ficou revoltada com o abandono do pai. De uma beleza escultural, Anita era intempestiva e imprevisível. Aos quinze anos decidiu ir morar na capital sozinha, para trabalhar e estudar. De nada adiantou a mãe cair doente com a notícia, repetindo sem parar: você quer matar sua mãe de desgosto? Etc... Mas recebeu o apoio afetivo e financeiro de Mariana. Na capital, Anita conheceu Giusepe e nem se deu ao trabalho de levá-lo para a família conhecer, porque já sabia que sua mãe lhe veria inúmeros defeitos. Talvez por estar longe da família, casou-se e conseguiu ser dona de sua própria vida. Linda, decidida, perfeccionista, dona de si, escreveu os capítulos de sua própria história sem saber que era praticamente o clone da mãe, que antes de ser aquela mulher amargurada, havia sido lindíssima, autossuficiente, até arrogante, cobiçada pelos melhores partidos de sua época, escolheu o homem errado, afrontou seus pais, se deu muito mal... até ser a Maria Madalena que iniciou esse conto.
A mesma sorte de Anita teve o irmão caçula, Edmundo, que sendo meigo e carinhoso, não despertou a ira da matriarca, ao contrário, presenteou a todos com sua prole numerosa. Em pleno séc. XXI, ter uma sequência de filhos, ou como diziam antigamente, ter uma escadinha de filhos, era de uma coragem indescritível. Na hipérbole popular, ele não podia olhar para a esposa que ela já anunciava: engravidei! Por uma ironia do destino, a cunhada de Edmundo gastou horrores em tratamento médico de fertilização durante uma década, mas não conseguiu ter filhos.
A mais calada e observadora de todos os filhos era Lucíola. Ninguém nunca sabia o que estava pensando, mas sua aparência plácida jamais despertou qualquer conflito. Gostava de cantarolar a música do grupo Titãs: “Família, família, janta junto todo dia, nunca perde essa mania...” Recebeu uma boa formação, graças ao apoio de Mariana. Suas inquietações eram guardadas para si mesma: não se conformava com as atitudes da mãe, mas também não a afrontava. Fingia que não se importava por não poder aprofundar suas amizades, mas não abria mão delas. O primeiro amor de sua vida aconteceu naturalmente, com um homem bonito, rico e culto que se apaixonou por ela, apesar de ser casado e muito mais velho que ela. O romance secreto só chegou ao fim quando ele se divorciou e disse que queria conhecer a família de Lucíola, que, sem saber como agir, rompeu com seu amor, deixando-o arrasado.
Ao longo dos anos, Lucíola tentou namorar como manda a tradição, mas todos foram afugentados pela rabugice de Maria Madalena, e a tática era sempre a mesma: ninguém voltava à casa de Lucíola após duas visitas, pois a interferência da sogra no relacionamento do casal era de tal dimensão, que nada dava certo. Naquela garotinha plácida da adolescência, foi nascendo uma outra Lucíola, ou como ela própria ironizava, um furacão por forças externas: seu nome atraía o bem da luz, mas também o lado negro do nome Lúcifer era o que dizia o dicionário onomástico. E ela ainda complementava rindo: sem contar que meu signo ocidental é leão e o oriental é cão. Precisa dizer mais alguma coisa? E muito seriamente ainda acrescentava que, na família, uma roubou toda a inteligência e o fogo de Prometeu, enquanto a outra roubou toda a beleza grega – então o que sobrou? Nada. Ah, sim, ela ainda tinha uma mãe possessiva ao extremo, para completar o quadro.
Um dia, Lucíola resolveu conversar francamente com suas irmãs, pois achava um absurdo que elas se contentassem com aquela vida tão sem graça, sem amores, sem amizades, sem novidades... A princípio, Aninha ficou horrorizada ao saber que Lucíola não era mais virgem. Apesar de tudo, não a julgou mal. Lucíola fez questão de falar sobre o tempo, que é indelével, não perdoa, ele passa e não volta mais. Agora que todos já estavam bem encaminhados, por que não ser um pouquinho mais ousados e felizes?
Depois daquela conversa franca algumas coisas progrediram: Mariana não se casou, mas teve um lindo filho com o seu primeiro amor, e de tanto plantar o bem, recebeu o bem de volta com juros e correção monetária; Anita continuou a ser o braço direito da mãe, entretanto, sem aceitar os estardalhaços extremos, ganhou muitas amizades sinceras, e por fim, ainda conquistou um amor que contrariava todos os perfis possíveis e imagináveis naquela situação. E Lucíola teve outros namorados, sem que a mãe soubesse, pois esse era o melhor caminho para cada um ter o seu próprio espaço. Lucíola era uma mulher do séc. XXI, independente, livre, viajava pelo mundo, investia em seus sonhos. O mais interessante de tudo, foi o imenso amor que Maria Madalena passou a sentir pelos netos. A partir dali, todos os conflitos da casa aconteciam em função dos netos. 


Reminiscências.Meu avô Nobohile Arakaki, o velho shinshu,
como representante dekassegui,
partiu aos treze anos de idade
de sua terra natal, arrasada pela I Guerra,
para nunca mais rever seus pais e irmãos.
As fortes lembranças de sua meninice na ilha de Okinawa
foram as primeiras histórias que povoaram o meu imaginário.
(Lucy Nakamura, 2003).

Educadores.O professor da escola pública é um herói anônimo da nossa sociedade,
que abraça uma profissão pouco valorizada, e nela,
contribui na construção de vidas melhores.
(Lucy Nakamura, 1998).