NELLY NOVAES COELHO
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                                                                                                                            Por Carlos Nejar 

Nelly podia ter sido pianista, como sua tia famosa, Guiomar Novaes. E até se desenvolveu nessa carreira, como concertista formada pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Mas descobriu sua verdadeira vocação: a crítica. O que captava, melodiosamente, com os dedos no teclado, passou a capturar com uma consciência de texto e tempo, impressionantes. Sempre com a humildade vidente de iluminar a escritura, entrar nos seus esconderijos e labirintos, devassar a beleza estranhada ou estranha, dentro de um projeto mais vasto e diligente, o da condição humana.
Doutora em Letras, Livre-Docente e Professora Titular por Concurso, na Universidade de São Paulo, cargos que acumulou durante dez anos (61-71) como o de Professora Titular de Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Marília, Nelly Novaes Coelho, desde 1961, freqüentou, assiduamente, a Imprensa com artigos e ensaios, em jornais e revistas nacionais e do exterior. E publicou livros marcantes. Cito alguns: O Ensino da Literatura (1966), Mário de Andrade para a Jovem Geração (1970), Carlos Nejar e a " Geração de 60" ( primeiro livro sobre a nossa geração, portanto, precursor, nominando todo um elenco de escritores surgidos. Escritores Portugueses (1973), Aquilino Ribeiro (1973), Literatura & Linguagem (1974), Guimarães Rosa ( em parceria com Ivana Versiani), Seleta em Prosa e Verso de Cassiano Ricardo, entre outros.
Pioneira também na área da Literatura Infanto-Juvenil (que criou, como Disciplina Complementar na área de Letras da FFLH-USP, em 1980, e já vem ministrando também na área de Pós-Graduação), editou A Literatura Infantil (1981), Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil (1983), Dicionário Crítico da Literatura Infantil/Juvenil Brasileira (abrangendo um século dessa produção, publicado em 1983 e em versão totalmente reformulada e atualizada até dezembro de 1990, sairá brevemente publicado em 4ª edição.)
Não contente com o magistério e a crítica, dedicou-se à tarefa editorial, fundando a Quíron, em São Paulo, onde tornou conhecidos poetas ou valorizados ensaístas e ficcionistas que se destacam, hoje, no panorama nacional, com coleções influentes como " Sélesis", " Logos", " Jogral", onde publicou grande parte de seus próprios livros.
Nelly Novaes Coelho completa trinta anos de atividade literária. E não se sabe qual é a maior - se a crítica (que lhe trouxe reconhecimento) se a ativista cultural, a descobridora de talentos, a apaixonada professora, a didata exemplar e criadora múltipla, a criatura humana. Ou aquela que soube, com denodo, fazer da língua portuguesa uma pátria.
Entretanto, é espantoso o caminho trilhado por esta mulher incansável, trabalhadora, obstinada, lúcida, abrasada de totalidade, presa à história, sem jamais separar o pensamento da linguagem. Generosamente.
Nelly engendrou em sua tarefa crítica peculiar campo imaginatório, levantou as premissas de sua visão fiel na paisagem ambígua das letras. E ao cuidar do material ígneo, perturbante, que é a imaginação da memória, nele se inseriu, gravou seu nome. Com a coragem de assumir o que Torga, o grande poeta português, vislumbrou e é o paradigma da criação contemporânea: " O medo do avesso" . E o avesso do real. Vigilante não deixou neste tempo que sua consciência se apagasse.
Como não compreender e amar quem teve a paciente grandeza de amar e compreender as pobres, cálidas, fortes, livres, fulgentes, furiosas ou cativas palavras? 

                                   O poeta Carlos Nejar é Membro da Academia Brasileira de Letras 

Transcrito de A Gazeta. Vitória -ES.