ISABEL ORTEGA
PORTUGUÊS
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TEXTO

TEXTO TEATRAL – homenagem ao poeta português Fernando Pessoa

 O FINGIDOR

 Autor – Samir Yazbek – Premio “Shell” como dramaturgo 2005 - Brasil

Traducción- Isabel Ortega  - português do Brasil ao castellano
CENÁRIO
-Algumas localidades da cidade de Lisboa, Portugal, conforme a ação determinar.
ÉPOCA
-Novembro de 1935, uma semana antes da morte do poeta Fernando Pessoa 1935
Uma semana antes da morte do autor.
José Américo – 42 años – profesor e crítico literario
Amália Conceição – 43 años – governanta da  casa do  poeta.
Enriqueta Madalena – 37 años – irmã de Fernando Pessoa.
Fernando Pessoa  – 47 años- poeta
Cena 1

Clareia no escritório de Américo. Manhã. Ele está diante de sua mesa de trabalho, tomada de livros e papéis, datilografando um texto. Amália entra.
Amália – Seu Américo, o senhor ainda não dormiu?
Américo –
Não, ainda não.
Amália –
Não quer tomar café?
Américo –
Não, agora não, obrigado!Amália começa a sair.
Américo – Que horas são, dona Amália?
Amália
– Sete.
Américo
– Já?
Amália
– O senhor está aí desde as seis horas de ontem. Assim não há Cristo que agüente. Não quer parar só um pouquinho para descansar?
Américo –
Até que não seria má idéia.
Amália –
O senhor anda trabalhando demais, seu Américo.
Américo –
Trabalho nunca é demais, dona Amália. Este serviço é que é chato. Preciso arrumar um datilógrafo o mais rápido possível.
Amália –
Hoje sai o anúncio de novo?
Américo –
Sai, eu só não sei se foi uma boa idéia.
Amália –
Não quer que eu chame o meu sobrinho?
Américo –
Miguel?
Amália –
É, o senhor já o conhece.
Américo –
Deixa eu pensar. A senhora bem que poderia me ajudar, não?
Amália –
Eu falei que ajudava. Se precisar, eu datilografo. Eu era muito boa nisso.
Américo –
Estou brincando, dona Amália. A senhora tem o serviço da casa que já é demais. E disso eu não posso abrir mão, caso contrário, como dizia minha mãe… “As baratas vão acabar me comendo”. Um silêncio. Américo – (referindo-se ao texto que escreve) A senhora não sabe como este trabalho é importante para mim.
Amália –
Eu imagino.
Américo –
Já ouviu falar em Fernando Pessoa?
Amália –
Não.
Américo –
Um dos maiores poetas de Portugal.
Amália –
É mesmo?
Américo –
Camões, a senhora já ouviu falar…
Amália –
Ah! Esse sim, claro.
Américo –
Pois saiba que Pessoa é poeta tão grande quanto Camões.
Amália –
Jura?
Américo –
E o homem só tem quarenta e sete anos, dona Amália. Está na flor da idade.
Amália –
Flor da idade?
Américo –
A senhora tem de convir que, para um poeta, quarenta e sete anos é flor da idade.
Amália –
É, pode ser.
Um silêncio.
Américo – A senhora sabe quantos livros ele publicou?
Amália –
Não.
Américo –
Um.
Amália –
Só? E como o senhor ficou conhecendo o que ele escreveu?
Américo –
Ele tem vários poemas publicados em diversas revistas. Eu fui atrás de todos, dona Amália, eu tenho tudo!Um silêncio.
Américo – Na semana que vem eu vou fazer uma conferência sobre Fernando Pessoa.
Amália –
Ah! Então é por isso que o senhor anda tão agitado...
Américo –
E não é para estar?
Amália –
O senhor conhece esse Fernando pessoalmente?
Américo –
Eu tive oportunidade um dia, mas não quis. Eu não acho importante conhecer o homem. A obra, sim. Mas o homem? Eu não me importaria nem mesmo se soubesse que ele pensa mal de mim.
Amália –
E porque pensaria mal do senhor?
Américo –
Artistas. Poetas… São seres estranhos. Mesmo assim, eu não me deixaria abalar. E sabe por quê? Porque tenho a consciência de que estou fazendo o melhor que posso, dando o melhor de mim.Um silêncio.
Amália – O senhor quer café com torrada?
Américo –
E queijo.
Amália sai. Américo volta a datilografar. Escurece.
Cena 2
Clareia na sala de Pessoa. Manhã do mesmo dia. Ele, vestido com um terno, gravata, chapéu e óculos, está sentado sobre um baú, contemplando o movimento da rua. Traz uma folha de jornal enrolada na mão. Depois de um tempo, Henriqueta entra.
Henriqueta – Já estou indo.
Pessoa –
Vá com Deus.
Henriqueta –
Como passou a noite?
Pessoa –
Bem.
Henriqueta –
Não sentiu mais nada?
Pessoa –
Não.
Henriqueta –
E as pontadas na barriga?
Pessoa –
Passaram.
Henriqueta –
Tem certeza?
Pessoa –
Depois desse banho, sinto-me um menino. Vê como o dia está lindo? Vá, Henriqueta. Não quero que se atrase novamente.
Henriqueta –
Eu acho que não vou embora.
Pessoa –
Você vai se quiser.
Henriqueta –
Você sabe que eu preciso.
Pessoa –
Pois então vá.
Henriqueta –
Tem certeza?
Pessoa –
As crises passaram.
Henriqueta –
Mas ontem… Eu passei pela porta do teu quarto… E parecia que você falava sozinho.
Pessoa –
Ainda não se acostumou? Você queria que um poeta falasse com quem?
Henriqueta –
Com sua irmã.
Pessoa –
Mas eu falo com a minha irmã.
Henriqueta –
Eu tenho medo, Fernando.
Pessoa –
Olha para mim. Eu não vou ficar louco. Ainda sei quem sou e o que quero. Confie em mim.
Henriqueta –
Confio.
Pessoa –
Pois então levanta. Não demora que eu conheço muito bem o seu patrão.
Henriqueta –
Hoje eu tenho autorização para entrar mais tarde.
Pessoa –
Teca...
Henriqueta –
É sério. Além do que, eu quero ficar com você. Está tão gostoso aqui…
Continuam sentados, contemplando a rua. Estão nitidamente felizes um com a presença do outro. Aos poucos Henriqueta se aflige. Fala como quem está com medo.
Henriqueta – Você só não pode beber.
Pessoa –
É, eu sei.
Henriqueta –
É daí que vêm as pontadas.
Pessoa –
Quem te disse isso, Teca?
Henriqueta –
O médico!
Pessoa –
E desde quando médico sabe alguma coisa?Um silêncio.
Pessoa – Estou pensando em trabalhar.
Henriqueta –
Você está falando sério?
Pessoa –
Que mal há nisso? Pessoa entrega o jornal para Henriqueta.
Pessoa – Olha.
Henriqueta –
O que significa isso?
Pessoa –
Leia.Henriqueta lê o jornal e fica indignada. Pessoa tenta disfarçar o incômodo.
Henriqueta – Datilógrafo de um crítico literário?! Você precisa disso, Fernando?
Pessoa –
Do dinheiro, preciso.
Henriqueta –
Juro que não estou te entendendo.Um silêncio.
Henriqueta – Fernando, você é um poeta. Seus poemas foram publicados em inúmeras revistas. Será que você não arrumaria emprego em nenhuma delas?
Pessoa –
Ainda não procurei.
Henriqueta –
Orgulho?
Pessoa –
Se você pensa assim.
Henriqueta –
Você traduziu Shakespeare. Será que não existe mais nenhuma peça dele para você traduzir?
Pessoa –
Ainda não pensei nisso.
Henriqueta –
E o prêmio que você ganhou com o seu livro? É pouca coisa, por acaso?
Pessoa –
Um reles segundo lugar.
Henriqueta –
Aliás, o dinheiro do prêmio não é o suficiente para você passar o ano?
Pessoa –
Já acabou.
Henriqueta –
(saindo) Muito bem.
Pessoa –
Espere. Se quer me ajudar, fique.Henriqueta volta.
Pessoa – (procurando disfarçar as dores que sente na barriga) Sabe que dia é hoje?
Henriqueta –
Não.
Pessoa –
Vinte e três de novembro de 1935. Faz quarenta anos que morreu nosso irmão Jorge.
Henriqueta –
Por que isso agora?
Pessoa –
Nada. Falei por falar.
Henriqueta –
Fernando… Por que você não volta ao médico? Isso que você tem parece sério.
Pessoa –
Eu estou bem, Teca.Henriqueta sai. Pessoa começa a fazer alguns experimentos com o corpo, procurando criar, ao que tudo indica, uma figura humana. Uma nítida mudança física começa a se operar nele. Trabalha sobretudo braços, ombros e expressão facial. De repente, estamos no território da imaginação do poeta. Entram seus três principais heterônimos, ou seja, personalidades literárias criadas por ele: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Ninguém mais, a não ser o próprio Pessoa, pode enxergá-los.
Caeiro –
Que vai fazer?
Pessoa –
Vocês por aqui? Já disse que não queria mais vê-los. Você não estava morto, Caeiro?
Caeiro –
Estava? Estou. Isso faz alguma diferença?
Pessoa –
E você, Campos? Não ordenei que sumisse?
Reis –
O que significa isso?
Pessoa –
Tenho mesmo de responder, Reis?
Caeiro –
Vai se disfarçar?
Campos –
Um heterônimo vivo?
Pessoa –
Exatamente.
Campos –
Que coisa mais ridícula.
Caeiro –
Controle-se, Campos.
Campos –
Ele vai nos copiar!
Reis –
Para que isso?
Pessoa –
Não sei. Senti necessidade.
Caeiro –
Poeta.
Pessoa –
Diga, mestre.
Caeiro –
Compreendemos sua necessidade.
Campos –
Eu não compreendo nada.
Caeiro –
Mas é bom que se diga: pode ser perigoso.
Campos –
Isso não se faz conosco!
Caeiro –
Isso não se faz consigo.

Campos – Existem outros heterônimos que você criou e ficaram pelo caminho.
Pessoa –
Não entendo.
Caeiro –
Não é a simplicidade em mim que tanto admira? Pois então. Agora que chegou o momento do teu repouso, vai complicar ainda mais a tua vida?
Pessoa –
Que repouso? (referindo-se a Campos) Enquanto esse aí existir…
Campos –
Também tenho a minha opinião.
Pessoa –
Eu quero ação.
Campos –
Essa ação não te levará a nada.
Pessoa –
Cansei de contemplar o abstrato e o perdido. Agora quero ver se conheço alguma realidade de fato. Mas para isso me sirvo… não mais de heterônimos, mas de um personagem. Essa é a única diferença. O resto eu sei que virá.
Reis –
Quem é?
Pessoa –
Seu nome é Jorge Madeira. Jorge em homenagem a meu irmão. E Madeira é a ilha em que aportei quando saí de Lisboa pela primeira vez.
Reis –
E como ele é?
Pessoa –
Prefiro não dizer. Talvez nem eu saiba ao certo. Mas vou descobri-lo. Na verdade, quero descobri-lo. Eu não conheci esse meu irmão. Ele viveu apenas um ano. (para Caeiro) Agora estou vendo. Jorge tem algo de ti.
Caeiro –
De mim?
Pessoa –
O caráter.Um silêncio.
Reis – Estou triste, Fernando.
Pessoa –
Por quê?
Reis –
Talvez eu seja assim sempre, triste por tudo.
Pessoa –
Você que é a parte minha mais difícil de compreender…
Reis –
Mas ao mesmo tempo admiro a sua coragem. Desejo-lhe sorte nessa empreitada.Reis sai.
Caeiro – Então você vai mesmo?
Pessoa –
Tenho de ir.
Caeiro –
Pois estarei aqui. Se precisar de mim…
Campos – A
inda vou rir disso tudo.
Pessoa –
Você devia me ajudar, Campos.
Campos –
Você é que devia me ajudar, poeta. Não sabe o estado lastimável em que me encontro.
Campos sai.
Pessoa – (para Caeiro) Adeus, mestre.Caeiro sai. Pessoa fica um tempo aturdido, sem saber o que fazer. De repente anima-se. Desse ânimo tira energia para livrar-se da parte superior do terno, do chapéu e dos óculos. Permanece com a calça do terno e a camisa branca, sobre a qual lança um novo paletó, listrado, exótico, que retira do baú. Pega também uma boina. Enfim, trata-se da principal parte do figurino de Jorge Madeira, personagem que passará a representar, um heterônimo vivo, como bem adivinhou Campos. Sai. Escurece.