CAMILA MOSSI DE QUADROS
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Sumário:
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Crônicas

01 (Des) Evolução
02 Paixões e Gramática de Domingo à Noite
03 Virtudes
04 “Você é boba, Rose!”
05 A Lenda da Estrela (De)Cadente do Camelot
06 Engavetamento
07 Ensaio da Desunião
08 Crônica de Paixão
09 No princípio…
10 Til old school

Causo

11 A Menina Mézinha e o Italianinho Bigodudo

Poesia

12 Doce Visita
 
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01  (Des) Evolução
Em meados de 2020 um ser evoluído passeava pelo que um dia fora a metrópole de São Paulo, os únicos vestígios que via era algo que lembrava uma civilização primitiva devastada, provavelmente pela guerra de 2010, que se deu em plena ditadura política. A mídia que reportou que as causas da guerra com os EUA foram os incômodos protestos ambientalistas que rejeitavam a ‘genial idéia’ de transformar a Amazônia na ‘fazenda do mundo’, com direito a soja, café, cana-de-açúcar, bovinos e galináceas; entretanto fontes menos lícitas (em período ditatorial) relatavam (quando vivas) que o real motivo foi que nosso amado-justo-honesto e louvável ditador não queria dividir lucros, monopólio! – e disse um sonoro “Fuck you and relax!’ quando o ilustre-amado-simpático e honesto presidente norte-americano perguntou ‘o que o mundo comeria?’; seguindo com as pérolas sem traduções, (sabemos o nível de conhecimento do nosso oper... digo, ditador): “O mundo não é redondo? Que faça dieta! Mas o companheiro não se preocupe, faça como seu antecessor, coma a secretária!”
E o Brasil, que já vinha quase dez anos de guerra civil (sob tapetes), ganhou mais dez de guerra mundial. Não sobrou quase nada, quase nada da bela paisagem com cores já desbotadas que Simão leva na memória, o país ficou selvagem, luta por sobrevivência (brasileiro sabe bem como é isso), luta por comida. A vida sobreviveu, mas a tecnologia não.
A paisagem parecia ter regredido uns duzentos anos (bem menos arbórea, diga-se), era silenciosa e tranqüila como Simão sempre sonhara... E Simão virou líder, sabia sobreviver ali, sabia ser feliz ali, sabia vencer o medo. Começou a ensinar aos brasileirinhos coisas extintas e sublimes, de grau de complexidade extrema para suas mentes tupiniquins, como amor, respeito, honestidade, gratidão, sinceridade.
Explicou a eles que virtude não é de comer. Explicou que quando respeitamos a natureza ela nos respeita, que cada um vale pelo que é, não pelo que tem. Falou para eles que o filósofo estava errado, que eles existiam ainda que não pensassem, e que não se afobassem porque toda espécie demorava milhares de anos para ganhar o ‘i’, virar irracional, enfim, evoluir!
Enquanto o ‘i’ não vem, têm que salvar o planeta, destruir as metrópoles, as tecnologias, as ‘preciosidades’; tinham que limpar o planeta daquele passado horrível. A única ressalva que Simão fez antes de pegar um belo cacho de bananas e pular no seu galho foi para que poupassem os livros; Simão, como outros seres evoluídos, sabe que “um planeta se constrói com macacos e livros”.

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02  Paixões e Gramática de Domingo à Noite
Namorados deveriam ser tópico de estudo científico à parte do restante da humanidade. Casais em início de namoro são exacerbadamente dotados de sentimentos de cumplicidade e gentileza, ultrapassando qualquer resquício de raciocínio lógico, acima de qualquer expressão de inteligência de outro exemplar da espécie. Exercem fenômenos quase que surreais de melodrama e romantismo, tipicamente aos domingos à noite. (perceptíveis apenas sob análises críticas, materialistas e/ ou inteligentes). Casais de namorados adoram domingos à noite.
Planos para um fim de semana perfeito:
Ela: amanhã cedo poderíamos ver os ingressos para a exposição, né benzinho?
Ele: claro meu docinho-inho-inho. Onde estão vendendo os ingressos, ahn? Minha florzinha!
Ela: acho que no shopping tem, Putucuxo.
Ele: meu bebezinho quer ver os ingressos? Que linda!
Ela: (suspiro) e o meu amorzinho não quer?
Ele: claro que quer!!! (slashslishslash!*) Mas meu amor, você vai lá ver os ingressos por quê? Ahn??
Ela: ah, porque semana que vem não temos nada para fazer, fofo.
Ele: (extasiado) mas como minha namorada é inteligente... inteligente não! – GENIAL!!! – você é genial Cicinha! Um fim de semana livre e já quer lançar uma tendência mundial! Minha gatinha!
Ela: (?)
Ele: já posso ver seu futuro, meu amor: milhares de pessoas se reunindo para ‘ver os ingressos‘, sua maravilhosa e reconhecida exposição de ingressos!! (imaginem só!!) Pessoas vindas do mundo todo para, como você, admirar os pequenos ingressos por amor, por ARTE!!! Sem nada em troca além de satisfação pessoal e...
Ela: Putucuxo, pára...! Eu quis dizer ‘ver’ de ’comprar’, não surta bebê!
Ele: (de coração partido, iniciando a briga de domingo à noite – casais de namorados adoram brigas de domingo à noite.) ‘Ver’ de ‘comprar’? Não são sinônimos! ‘ver’ de ‘enxergar’, ‘comprar’ de ‘adquirir’, fosse assim um cego não poderia ir a shows, né? Como iria ‘ver’ o ingresso?!
Ela: tudo bem meu amor, me perdoe. Eu não quis lhe ofender, estava querendo dizer ver os preços, os horários, os lugares e não cultuar os ingressos, ? Então, vamos adquirir os ingressos amanhã?
Ele: ‘ adquiriremos’! (triunfante)
Ela: está me corrigindo?
Ele: não, apenas garantindo o livre comércio e suas expansões...
Ela: livre comércio?!
Ele: a garantia de realizar transações comerciais pela internet, sem ter que ‘ver’ nada! Como os ingressos que adquirimos para o show do Evanescence, sem vê-los!!
Ela: está bem docinho... esquece esse assunto e vem aquizinho, veeem!
Ele: não tente me persuadir com essas suas carícias infames! Preciso garantir a superioridade vocabular da nossa descendência!!!
Ela: , , mas não precisa chorar Gutinho, afinal, nada disso tem importância, nosso amor é maior do que se possa expressar com qualquer palavra! (mulheres, o que seria do mundo sem elas?).
Ele: olhe aqui Maria Cecília, pare de diminuir o nosso idioma, ele pode expressar qualquer – EU DISSE QUALQUER – coisa!
Ela: Augusto, eu não tenho culpa de você não entender o que eu falo, linguagem figurada, Augusto! Estética, estilo, variação lingüística!
Ele: e o real significado das palavras, para onde vai? Ahn... ahn???
Ela: pra rua, como você!
Ao estudar as causas do fluxo de pessoas nas ruas aos domingos, o IBGE deveria considerar especialmente os casais de namorados, em muitos desses casos, ex-casais.
Ele, chegando à calçada de casa suspirando que ela podia – sim ela podia – ter dito ‘informar-se’ sobre o ingresso, se queria as malditas informações.
Ela, tentando dormir e pensando porque o Augusto não entende o que ela fala. Seria ele meio surdo? Bem que ela desconfiara quando, em certa ocasião, na frente dos amigos dele, disse que ele seria um astro e ele foi embora chorando, achando que ela dissera asno.
Semanas depois ele pensara apenas que o ingresso tinha sorte, teria enfim, sido visto por ela... visto e tocado. E ai, como ele invejava o tal do ingresso: aposto que ele não sabe etimologia.
* Slashslishslash: onomatopéia para beijo de língua que eu usava na língua falada durante quaisquer cenas de beijo durante a minha infância, causando embaraço e incômodo. Sempre quis trazê-la à língua culta. Agradeço a realização.

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03  Virtudes
      “Todos iguais e tão desiguais
                                         Uns mais iguais que os outros!”
                                                      (Humberto Gessinger)
              Não querido leitor, não está tudo perdido, você sabe... Esperança! Acredite que tudo melhora!! O que é esperança?! Ah, espere um pouco, acredite, isso é esperança! Uhm, você já esperou demais? Mas tenha fé, ainda existem as virtudes, como diz meu querido pai, as únicas coisas que não têm solução são a morte e o cubo-mágico. E você, o que acha? Ah, você não acha nada?! Como assim sua opinião não vale nada?!! Somos todos iguais, meu amigo! A vida é bela e as pipocas pulam!!!
              Ahh, você não gosta de pipocas... e não tem espelho? – ah, não adianta a vida ser bela se você não tem espelho, entendi, entendi. Eu sinto muito por você estar desempregado, doente, ter sido chifrado, seu filho ter morrido na fila do SUS e seu cachorro ter mordido você... ah e por você não gostar dos Beatles...
              Mas pense bem, você está aqui comigo... – ah sei... você nunca ouviu falar de ‘Bitou’ nenhum né? – mas como eu dizia, estamos aqui, juntos, você se interessou pelo esperançoso título dessa crônica e está aqui, e nós meu amigo, somos brasileiros, somos irmão entende? Somos iguais! Opa... sua mulher te chifrou com seu irmão?... eu juro que não sabia, eu juro!! NÃO!!!!! Não rasgue essa crônica!!
               Entendo a sua revolta, mas pense nas arvorezinhas que se sacrificaram para trazer este belo papel, com essa humilde crônica para você! Vamos reciclar irmão!! Ai... não, pára!! Desculpa, desculpa... irmão é o que? Não fala palavra feia... é horário nobre! Ah você é petista... ah está bem, vou relaxar; mas ‘gozar’? Da cara de quem? Da nossa!
               Somos todos iguais, mas você não é bom o bastante para concorrer comigo, use as cotas!
               Somos todos iguais, mas o meu salário sobe menos de 10%, uma vez ao ano, quando a câmara está de bom humor, ainda assim quem paga a pensão para os filhos que eu fiz, adivinhem?! – EU!
              Somos todos iguais, mas se eu encarar o filho de um traficante ele mata até a minha quarta geração, e se ele matar o meu... Ah, passa três aninhos numa instituição para jovens problemáticos, depois sai e me mata.
              Somos todos iguais, mas eu tenho educação para não falar cuecão no serviço, quanto mais em horário nobre.
              Somos todos iguais, mas eu não vou me perder com as balas, e espero que nenhuma delas me encontre, afinal, de falecidos ilustres, bastam a esperança e todas as outras virtudes.
Não, não... virtude não é de comer!

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04  “Você é boba, Rose!”
              Acredito que durante a produção do filme Titanic foram idealizados diversos momentos marcantes. Como disse a crítica, “uma super produção”, feita para gerações, feita para emocionar. E emocionou. Os jovens saíam do cinema encantados com o romance. Os adultos arrasados com a tragédia. Mas nós... nós éramos adolescentes – adolescência é a fase em que um ser humano só é considerado humano pela semelhança de traços – o romance não encantou ninguém. A tragédia encantou a Fabi, antes do filme começar a Fabi já estava chorando. Admito que também chorei, até a sétima vez que assisti, mas eu não conta, choro até em filme de comédia. Mas o que realmente nos marcou no filme foi uma única frase, mudou o vocabulário da turma e os nossos ideais adolescentes.
              “Você é boba, Rose! Você é boba!” – O Jack disse à Rose quando ela pulou do bote salva-vidas para afundar com ele no Titanic; e isso definia bem a Rose, ela era, de fato, boba. Ela era rica e bonita e queria se matar. Tinha um noivo rico e bonito e ainda assim queria se matar. Ok, ok, valem as máximas “beleza não é tudo” e “dinheiro não traz felicidade”, mas até a Fabi concordava que a Rose era boba, a Fabi sentia cheiro de tragédia de longe e prevera que o loirinho ia morrer por causa da boba, afinal, se ela tivesse ido com o bote, o Jack se salvaria no relógio que a salvou. E os dois sobreviveriam e “seriam felizes para sempre”, ou ao menos até o fim do filme, porque sinceramente, o Jack era um boêmio, safado, que ia gastar todo o dinheiro dos dois em jogos e apostas; enquanto a Rose alternaria entre pia, fogão e tanque; ficaria gorda, feia e infeliz. O Jack seria alcoólatra e acabaria morto pelo marido de uma das suas amantes.  
             
              Mas não nos desviemos do assunto, a Rose era boba, isso se tornou fato quando ela jogou fora o “Coração do Oceano”, uma fortuna que, poxa, poderia ter deixado de herança para um de nós.
Daí para frente, no nosso vocabulário, alguém, (independente do sexo), poderia ser boba, ou bem pior, poderia ser ‘Boba Rose’.
__ Viu que a Fabi voltou com o namorado?
__ Jura? Mas ele não tinha dançado “I willl survive” no meio da festa, feito strip-tease e agarrado um dos seguranças?
__ Tinha, mas disse que era seu outro eu...
__ Como assim?
__ Disse que faltou a terapia e sua dupla personalidade o dominou.
__ Ele fazia terapia?
__ Não que eu saiba.
__ E ela acreditou?!
__ Aham.
__ Mas é uma ‘boba Rose’ mesmo!
                                             ...
              A Rose virou um ícone da bobeira universal, então, todas as vezes que alguém fosse ludibriado, sua bobeira seria lembrada.
__ Acho que você deveria terminar com ele!
__ Mas eu gosto dele! Seu namorado nunca errou?
__ Não!
__ Mas Fabi, e aquela história do “I will survive”?
__ Não era ele, Cleu; era a Sandra, a outra personalidade dele!
__ Sandra?!
__ É! Ela até me dá conselhos de moda.
__ Você é boba, Rose!
__ Mas meu nome é Fabi...
                    A Fabi não se lembrava da frase, nessa parte do filme estava quase desidratada.
              A Rose não saltou apenas de um bote salva-vidas, ela saltou de cabeça no seu ideal, ideal que acabou causando a morte do seu grande amor. Ideais precisam ser pesados, refletidos. A Rose precisava conversar com alguém, precisava de uma amiga. Quem sabe se o Jack tivesse dupla personalidade...
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05  A Lenda da Estrela (De)Cadente do Camelot
                 Claro que o tempo passa e a nossa visão sobre as coisas muda. É natural e explicável, acontece com o amadurecimento, também por deficiência de memória ou pela nossa necessidade de imaginar um passado que possamos digerir. O tempo transforma relacionamentos conturbados seguidos de ‘pé na bunda’ em desenvolvimento sentimental, experiência de vida. A falta de memória (e somente ela), faz alguém votar nos mesmos políticos, torcer para o Corinthians e amar a sogra, apesar do seu comportamento anti-social com tendências nazistas, no início do namoro.
                 Mas o pior passado é aquele que faz nosso estômago girar. Todo mundo já recebeu uma notícia daquelas que torce o estômago, joga-o no pé, no ombro esquerdo, no joelho direito, na clavícula e depois o colide com o fígado. È aquele fato que pesa como um tijolo dentro do estômago, depois que este pára de ser arremessado pelo nosso corpo, E ignorar o fato a ponto de reinventá-lo, é a pílula contra essa ‘indigestão emocional’. É por isso que os heróis não morrem. É inconcebível, indigesto. Elvis não morreu, Michael Jackson tampouco, e meu irmão jura que o Senna foi tirar férias no Peru porque estava cansado de ganhar, assim como Rei Arthur é “uma vez e para sempre rei”.
                 Boa parte das coisas da vida não entendemos e, das que entendemos, muitas não conseguimos suportar, tendo que reinventá-las, é assim com a morte, temos infindáveis mitos para explicá-la de forma agradável e fingir que não temos medo. A verdade chega a ser tão indigesta que muitos sábios ficam bendizendo a ignorância por aí, apoiando o entretenimento passivo da TV, desencorajando todos quanto à busca de respostas, o que pode funcionar bem por anos, Mas, chega um dia na vida de um homem, no qual ele depara-se com as perguntas de seu filho sobre a vida, o planeta, o universo.
– Pai, a professora de biologia falou que todo o nosso corpo é formado por células.
– Sim filho, todos os nossos órgãos e tecidos são formados por células.
– Mas pai, vi no documentário que toda a matéria é formada de átomos.
– É, meu filho, é o que os cientistas dizem.
– Mas nós somos matéria, não somos?
– Claro que somos.
– Então as nossas células são átomos? Ou os nossos átomos é que são células? Ou as nossas células têm átomos dentro? Será que estão dentro do núcleo?
– Porque você não assiste desenhos?
                 O pior é conviver com a realidade de nunca ter se perguntado isso antes. O moleque tem menos de um terço da sua idade e já não se conforma com as próprias dúvidas. Dia desses, veio perguntar como chamaríamos o posto do marido da Dilma, se ela fosse eleita:
– Será que vai ser primeiro cavalheiro, pai? Porque para a mulher é primeira dama, não é? Primeiro ‘damo’ seria engraçado.
                 Respondi que, se a Dilma ganhasse, nada mudaria. Seria primeira dama ainda, o posto de seu cônjuge. Caso a Marina ganhe, talvez nomeiem o marido de primeiro esposo ou primeiro ministro, que aqui no Brasil essas coisas acontecem. Claro que essas informações vão ficar mais uns sete anos incubadas no garoto, antes de fazerem algum sentido. Mas o mais difícil nesse nosso jogo de ‘todas as perguntas do mundo para um pai cansado’, ainda foi explicar o Lula sem causar indigestão.
                 – Pai, o presidente Lula é chato? Porque no desenho, o Lula Molusco não gosta do Bob Esponja. Ele mora na água? Se ele é uma lula, porque a mamãe chama ele de burro? Ele é um animal ou o quê? Porque o país deve ser um navio, o tio Carlos falou que o Lula ta afundando o Brasil. Mas se ele é o filho do Brasil, não deveria ser um naviozinho?
                 É mais fácil o menino entender toda a mitologia grega, do que a história desse presidente, mas eu tentei.
                 – Filho, há muito tempo atrás, num reino distante, havia um rapaz que se chamava Luis Inácio. Sua madrasta, a Terra, o fazia trabalhar muito e passar necessidades, enquanto levava seus filhos Fernando Henrique e Fernando Collor para todas as festas da corte. Certo dia, Luis Inácio queria muito ir à festa onde achariam um marido para a princesa, senhorita República. Revoltado com a injustiça de Fernando e Fernandinho poderem cortejar a princesa e ele não, exclamou impensadamente: “Dava um dedinho para poder ir nessa festa!”. Nisso, apareceu uma Fada... – Um gênio! – exclamou meu filho.
– Não gosto de histórias de fada, pai! Eu já tenho dez anos!
                 Foi aí que lembrei-me da história do grande rei que na verdade era só um cavaleiro, até porque, para representar a política, uma história precisa de alguma baixaria, um pouco de traição, essas coisas.
                 Era uma vez, um cavaleiro que desperdiçava sua coragem nos sindicatos, esbravejando aos quatro ventos, sem ter muita atenção da nobreza e trabalhava vendendo artigos importados no Camelot. Um dia, Luis Inácio, o cavaleiro, estava sentado numa pedra, frustrado, quando ouviu uma voz: “Luis, você não é só um filho da terra, diga ao povo que és filho do Brasil!”. Luis respondeu que não podia falar ao povo, que sua voz era feia, “e Deus, eu nem tenho um dedinho” – depreciava-se. A voz disse-lhe então:
– Eu não sou Deus e você não é Moisés! Sou o grande Merlin! Se não quer falar ao povo, vá até a foice enfiada na pedra e arranque-a, então todos saberão quem você é, e pela sua força, será conhecido como um animal de muitos braços.
                 Luis foi até a grande foice e puxo-a num golpe só. Ela saiu da pedra, e irradiou por todo o vilarejo. O povo admirou-se e os nobres aclamaram-no Lula do Camelot: “filho do Brasil! Nosso rei!”
                 Lula e sua esposa Marisa, que ninguém sabe quem foi ao certo, mudaram-se para o castelo branco. O rei Lula, então, fundou uma mesa de cavaleiros, que apesar de ser quadrada, era conhecida como Távola Redonda, ou tábua redonda, pelos mais simples. Reza a lenda que os que ali se sentassem seriam ensinados por Merlin a evitar o crime e a maldade, a fugir da traição, da mentira e da corrupção, a perdoar quem anseia perdão e a respeitar e a proteger as mulheres, mas parece que Merlin tirou férias e de tudo isso apenas materializou-se a Lei Maria da Penha. Suas principais cavaleiras eram Dilma, seu braço direito e primeira cavaleira gay; Marta, a primeira cavaleira popstar, Marina, a primeira cavaleira descendente de formigas e Benedita, a primeira cavaleira negra. O reino estava protegido sobre a vigilância feminina, o rei ocupava-se com seus projetos de bolsa castelo, dona Marisa ninguém sabe o que fazia e a tranqüilidade armava sua barraca no quintal.
                 Até que, num belo dia a cavaleira Dilma trotava pela serra, de onde avistou dona Marisa e apaixonou-se, levando-a para um passeio pelo cabo eleitoral. Os boatos da paixão chegaram ao ouvido do rei, que cogitou substituí-la pelo cavaleiro da Mantega, que cai bem com pão. Mas resolveu seguir o conselho das outras cavaleiras e não deixar a baixaria chegar serra acima, precisava encontrá-las e abafar a história. Enquanto isso, Marina, ‘formigavelmente’ conspiradora, planejava dar um golpe de estado e assumir o poder, levando suas folhas verdes para o castelo branco.
Ao encontrar dona Marisa e Dilma, ouviu os argumentos da primeira cavaleira de que era a melhor substituta para ele, que poderia ser seu primeiro cavaleiro sem dedo, que sairia como herói, seu filme teria música da dupla Zezé de Camargo e Luciano, e ainda poderia ficar com dona Marta, que era o que todos desconfiavam desde o princípio. Apesar da frustração, Lula não poderia rejeitar o filme, aceitando a proposta.
                 Quando voltou ao castelo, descobriu o golpe de Marina, que aliou-se ao poder da serra, para tomar o seu lugar. O rei, que estava abalado, não suportou tamanho golpe: “Nunca na história desse reino houve tanta corrupção”. Merlin, frustrado com o resultado da própria obra, ofereceu ao rei a escolha de seu destino mais uma vez: “Você pode ir para o mar, e ser o Lula, o rei do polvo ou virar uma estrelinha vermelha no universo.”.
                 O rei desapareceu, mas os boatos dizem que ele virou uma estrela cadente que sempre ilumina o céu perto do Camelot. A cavaleira Benedita estava na história pela vaga de cota. Fim. – Não sei se meu filho entendeu, mas o fato é que ele nunca mais me perguntou sobre política, além do mais, a história fica bem menos indigesta dessa forma.
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06  Engavetamento
              Sempre fui da corrente 'anti-apartamentos', prédios me lembram cômodas com suas gavetinhas. Não só pela questão de espaço, existem apartamentos grandes, mas de forma alguma, grandes apartamentos.
              Mamãe foi de grande influência na minha formação ideológica anti-apartamentos, "eu gosto de casa! Não nasci para morar em 'apertamento'! Aliás, não sou galinha para morar em puleiro.", apregoava. Assim, pensei que pudesse ser um trauma subconsciente trazido da infância, que aflorou abruptamente quando fui apresentada à minha morada de faculdade.
              "Gavetão" – argumentou minha amiga, diante do meu ar de decepção. "O apartamento é enorme, se é gaveta, é gavetão.", disse, sabendo da minha paixão por gavetas grandes. "Não para morar dentro!", respondi, já imaginando como seria tortuoso escrever meu endereço daquele momento em diante: Rua Mário Oncken, número 90, Quarto Sul 1, Cômoda 7, Gaveta 731. Deprimente, deprimente.
              Nada no universo se conforma tão bem quanto o ser humano, algum tempo morando em apartamento e você pega o formato. Se quer identificar um 'apartamentando' de pai e mãe, nascido e criado, procure pelas marcas das janelinhas, provavelmente na testa.
              Morei dois longos anos na 'gaveta', que me ajudaram a elucidar minha ideologia. A princípio, achava apartamento antinatural, já que o ideal ancestral de 'casa' era ter um pedaço de terra, de chão. Isso explicaria a preferência da maioria por casas, mesmo  essas tendo um preço relativamente maior e abdicando de benefícios  incomensuráveis, como segurança e síndicos; tudo em prol do sentimento de enraizar-se na superfície da terra, ao invés de ficar por aí, suspenso numa gaveta.
              Eu estava errada, docemente errada. Descobri quando migrei da cômoda para uma casa, um lar, com muros, portão, jardim. E céu, uma incrível porção de céu diante da qual, subitamente, fui tomada por uma óbvia e adorável consciência. Casas valem mais porque oferecem uma instalação inestimável não apontada pelos corretores de imóveis, o céu, as estrelas, todo o universo no seu quintal. Espaço para você encher com a sua existência, seus sonhos, ou OVINs, caso você seja um astrônomo-inventor.
              As casas deveriam ser avaliadas por metro quadrado de céu, já que isso influencia diretamente a felicidade dos moradores, mais do que adegas, banheiras, suítes ou salas de jantar. Você pega sua cadeira, senta no seu quintal e cumprimenta a via-láctea, ali, exposto ao restante do universo, exatamente na superfície do planeta azul, sem limites para sua existência, sem janelinhas claustrofóbicas.
Os nobres idealistas anti-apartamentos, até hoje injustamente vistos como retrógrados Nietzschenianos apegados a noções feudais de 'ter um chão', queriam apenas um pedaço de céu, de infinito azul ou leite estelar, de florescer ao sol de novos dias. E, de quebra, evitar elevadores.
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07  Ensaio da Desunião
O que pode unir um país? – Parece uma pergunta fácil a princípio. A primeira resposta que veio na minha cabeça foi futebol, e evanesceu na mesma velocidade em que veio. Futebol, definitivamente não une um país. Prova disso são as brigas polêmicas das torcidas organizadas, o preconceito contra os jogadores supostamente gays. Meu avô adorava contar que o Internacional, vulgo Colorado, foi criado porque no Grêmio não aceitavam jogadores negros no início do clube, fato que já mudou faz tempo. A demora para o reconhecimento do futebol feminino é mais uma prova da segregação e discriminação. O espírito patriota já abandonou o futebol há muito, como papai vive dizendo, o que manda agora é dinheiro. Mas se futebol, que é a grande paixão nacional, não é capaz de unir o Brasil, o que o fará?
                O patriotismo foi extinto não só do futebol, houve tempos em que o serviço militar era motivo de orgulho para os jovens. Nos nossos dias, não é difícil ver um rapaz inventando doenças para pedir dispensa.
                 – Senhor, eu amo o meu país, mas não posso servir o Exército.
                 – Não pode? Por quê?
                 – Tenho sopro no coração, senhor.
                 – Vai fechar, você ainda está em formação, se não morreu até agora não morre mais.
                 – Mas tem outra coisa, eu sou gay.
                 – Os tempos estão mudando, meu rapaz. O Exército resolveu se abrir para os homossexuais.
                 – O quê? Vocês estão aceitando BICHAS?
                 – Como é?
                 – Nada, eu quis dizer fichas, vocês não tem a minha ficha? Também sou daltônico, tenho asma, três centímetros a menos na perna esquerda e treze doenças venéreas, deveria constar na minha ficha.
                 – Hmm.
                – Mas não se preocupe, trarei um atestado médico. Aliás, meu médico tem o mesmo sobrenome que o meu, mas não somos parentes, nossas famílias vieram de regiões opostas e distantes da Itália.
                 – Meu filho, nada na Itália é distante. Está dispensado.
                 – Só isso?
                 – Uhum, to fazendo sua carta de dispensa. Quais são mesmo as doenças venera, preciso dos nomes para colocar no documento. Aliás, se tiver camisinha, esse é meu número.
                 Se o rapaz tiver sorte, o serviço militar não vai uni-lo ao superior que poderia descobrir sua farsa.
                 O Hino Nacional foi criado para unir as pessoas e desenvolver um sentimento patriota. Resultado? A linguagem culta do hino é inacessível à maioria da população. A língua da periferia, dos meus amigos, da minha família, dos jovens é completamente diferente daquele português carrancudo do hino, o que me faz lembrar que nem a língua une o Brasil. Apesar de termos apenas uma oficialmente, ela é um camaleão raro que brinca de ser diferente conforme sua paisagem, e daí ninguém se entende, ludicamente o camaleãozinho transforma o Brasil na Torre de Babel pós intervenção divina. Falando nisso, Deus poderia unir um país, não poderia? Mas qual deles se daria ao trabalho de largar o trono para se importar com os pequenos e egoístas tupiniquins-afro-caucasianos-americanos, que são um pouco de toda etnia e não são nenhuma. A miscigenação bem sucedida não foi capaz de unir o país. Ao invés de sermos brasileiros, somos descendentes disso, daquilo e daquilo outro. Preferimos segmentar e classificar a ver a beleza no todo.
                 Pode parecer pessimista, foi mesmo uma reflexão um bocado triste, então lembrei da música e como ela é mágica, como nos eleva da nossa condição mesquinha. Não qualquer música obviamente, pensei, caindo em contradição, segmentando quase sem perceber. A música une as tribos urbanas. Não mais que isso. Por si só jamais unirá o erudito e o funkeiro, o apreciador de mpb e os de hip-hop.Estava praticamente sem esperanças de chegar a uma resposta convincente. Resolvi perguntar a opinião de uns amigos. Uma das primeiras respostas foi “ a moeda”. Absurdo. Claro que a moeda é apenas uma e circula no país todo, mas é uma das principais causas de discórdia. Outro, mais pessimista respondeu que se a transamazônica não foi capaz de unir o país, nem o trem de alta velocidade o fará. Meu pai, que chegou no meio da conversa, respondeu que super bonder une QUALQUER coisa e saiu assoviando.
                 – Acho que não estou sendo bem específico. Estou falando de unir em espírito, em sentimento, entendem? – Comentei, no que minha irmã respondeu “Tsunami”. Retruquei que noticiaram conflitos armados no Haiti pós Tsunami.
                     – Tsunami no Haiti une o nosso país, cabeção! Caridade ta em alta, você ta sempre por fora mesmo.  - Respondeu, delicada feito um cacto.
Minha prima disse que discursos ideológicos duvidosos sempre unem um país, prova disso foi a Alemanha de Hitler, mas obviamente não existem líderes competentes nem para subverter mentes no Brasil.
                 – O céu une o país. - Disse meu sobrinho na sabedoria da inocência. Sim, o céu é uma das poucas coisas que unem esse país.
                 Minha mãe quis se inteirar da conversa e pediu a minha opinião. Eu disse que a coisa que mais me lembrava “união” era futebol, afinal apenas em Copa do Mundo eu via as pessoas reunidas, com espírito patriota, olhando na mesma direção.
                 – Então, seu inútil! Não é futebol que une o país, é Copa do Mundo... – e o céu! – interrompeu o Biel.
                 – Isso, Copa do Mundo e o céu. E agora vamos parar essa discussão e almoçar, que o país eu não sei, mas almoço de domingo une essa família ou o chinelo havaianas faz a curva. – Continuou mamãe.                 
                 No caminho para mesa, minha prima sussurrou que a mamãe seria um líder político que uniria o país. Faz sentido, mesmo sem discurso ideológico mamãe colocaria ordem. Nada como um havaianas que faz a curva, porque discórdia, preconceito e egoísmo são falta de palmada de mãe.
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08  Crônica de Paixão
– Kakal!
Crônica de Amor
Kakal...
Crônica de Carinho
(suspiro) ... Kakal.
Crônica de Saudades
Kakal... (suspiro)
Crônica Biográfica
E a Kakal apareceu...
Crônica Metalinguística
              [...] como tanta emoção explode em cinco letras, enquanto todo o meu vocabulário é inútil para expressar as conseqüências de um casual sorriso seu...
              Kakal deveria ser neologismo para coisas estupendas, o sentido seria genérico: Dona Geralda varre a calçada e diz “bom dia”, você sorri e escancara um “Kakal!”. E a velhinha passaria o dia sorridente.
              O pôr-do-sol é Kakal, ipês roxos floridos sob nuvens cinzas são Kakal. Gargalhada de criança é Kakal pra caramba. Kakal é ouvir aquela música, é a sensação morninha daqueles braços. É furor, paixão, verdade escancarada. Alma. Força.
              É o disparar do coração quando o visor do celular exibe seu nome. É a paz de acordar e conferir que não foi sonho, porque ‘ela’ dorme ao meu lado.
             “De chocolate o amor é feito...”
               Suspiro - é de cacau, Xuxa. É de Kakal.
                                                                  22 de Junho de 2009
  
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09  No princípio...
        Deus criou o homem e vendo que este era a sua imagem e semelhança, deu-lhe o jardim e a mulher. Disse-lhe: "vá e nomeie!". O homem olhou a sua própria mão, abriu, virou, tocou seu rosto. Fechou o punho e bateu no peito: "A-DÃO!"; O Pai fitava-o num misto de orgulho e expectativa.
          Adão, olhando o jardim extasiado, abriu os braços e berrou: "É-DEN!", Deus sorriu enternecido. A mulher estava olhando inexpressivamente; o homem, então, aproximou-se, tocou seu seio e deixou escapar um "Hmmmmm!". O Criador, intrigado: "Hmmmm?". Adão triunfante, orgulhosíssimo do próprio trabalho, imediatamente explicou: "Não, não! É-VA!". O Todo-Poderoso com uma expressão desconfiada.
"Gato! Sapo! Mato! Coco! Rato! Vaca!" – disparou o homem, correndo, apontando e nomeando; enquanto Eva olhava ao longe, catatônica e Deus dividia-se entre descabelar-se e cogitar se o homem seria hiperativo ou se a mulher estaria quebrada. "Rio, gruta, pedra, mula, fruta!" – gritava Adão alucinadamente, quando Eva falou baixinho "horizonte". Deus, em meio a gritaria, aproximou-se e perguntou: "O que foi que você disse, minha filha?". "Horizonte" – respondeu ela. Andou um pouco, pegou algo no chão, examinou e disse "diamante"; as feições divinas alternavam-se entre orgásticas e chocadíssimas.
          Convencido de seu papel no mundo, continuava Adão freneticamente: "Vale, chão, ovo, sol, lama, lua, flor!", enquanto Eva, quase que musicalmente, dizia: "Pássaro, abacaxi, caverna, estrela, montanha, formiga, centopéia...". Deus, num misto de orgulho e desespero, pensava em quanto amava a mulher e em como precisava deter o homem antes que toda a criação fosse nomeada com menos de três sílabas.
          Deus, em toda a sua sabedoria, chamou então a mulher, que apareceu logo após apontar para um bichinho, sorrir e dizer: "Você tem cara de ornitorrinco.". Ornitorrinco foi golpe baixo, Deus ficou arrepiado e teve que tomar uma atitude. Estalou os dedos e subitamente os seios de Eva triplicaram de tamanho. Chamou Adão: "Meu filho, eu estava dando uns retoques na mulher e quero saber a sua opinião sobre esses novos seios que dei a ela.". Adão olhou de relance, sem qualquer entusiasmo e respondeu: "Tanto faz, não tenho tempo a perder com esses detalhes, ainda há muito o que se nomear e alguém aqui precisa trabalhar!".
           Então Deus colheu um pouco de cevada e, misturando com água, soprou e disse: "Tome filho, experimente a cerveja que fiz para você."; Adão mal havia engolido, soltou: "Adorei esse rum!". Deus, desacreditando no que ouvia, falou: "Chama-se cerveja", no que prontamente o homem retrucou: "Quem nomeia aqui sou eu, isto é rum!".
          Deus, perplexo e chateado por desobediência tão prematura, disse à mulher que não sabia mais o que fazer. Eva sorriu e cochichou alguma coisa no ouvido do Pai, que animou-lhe imediatamente. Distrair o homem dando-lhe uma mangueira dentro das calças era uma idéia genial! Orgulhava-se da mulher que fizera.
          Chamou Adão e falou: "Estou tão orgulho do trabalho que fizeste que irei recompensá-lo!", e estalando os dedos fez aparecer um pipi em Adão, que calou-se e foi brincar, ora acertando alvos ou escrevendo com xixi, ora exibindo-se para Eva que ignorava-o completamente, enquanto falava com maestria: "Gafanhoto, maritaca, crepúsculo, libélula...". Diz-se que, até nossos dias, os descendentes de Adão estão por aí, entretidos com o pipi ao invés de falar. Essa deficiência masculina com a comunicação é uma das grandes crises no relacionamento entre os sexos.
          Os homens são assim, monossilábicos, apegados ao significado básico das palavras e principalmente às palavras básicas. Não espere que ele lhe diga que você está extraordinária, borboletante, radiante, fascinante, fantástica, maravilhosa. Para ele tudo isto está incumbido em bonita. No máximo, em linda. Se ele disser bela, apegue-se, ele provavelmente tem 20 pontos de QI acima da média masculina. Se disser poderosa, desconfie, talvez vocês possam ser amigas. Se ele não disser nada, conforme-se, você sempre vai saber quando ele gostou, e ele está na mesma da maioria dos homens do planeta, do Brad Pitty, do Antonio Banderas, do Tom Cruise, do Vin Diesel. O último homem que educaram pra se expressar acabou no movimento “Cala a boca Galvão”. A escolha é sua.
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10 Til old school

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11  A Menina Mézinha e o Italianinho Bigodudo
             Essa história não aconteceu em um reino distante. Não tem príncipe à moda conto de fadas e tenho quase certeza que, se tem cavalo, não é um puro-sangue branco. É uma dessas histórias que se passam no interior do Brasil, com uma Maria e um italianinho bigodudo de zóio azú. Eu apontaria a semelhança com a história da gata borralheira, mas é um tanto estranho e Freudiano chamar vovó de gata. Para manter-me longe deste enfoque ressaltaremos apenas a semelhança com a história da Cinderela. Assim como na história das fadas matracas, nossa heroína no princípio não era ainda e de fato uma ‘Maria’, era uma criança, sem televisão, sem internet, sem livros de histórias, sem fadas e sem príncipe. Mas nossa pequena Maria Salomé tinha mãe, e isso fazia dela a menina mais feliz do vilarejo de Porecatu.
              Dona Joana, era linda como toda mãe, amorosa como toda mãe, mãe como toda mãe. Já tinha uma constelação de Marias, é verdade. Maria Dolores, Maria Fabiane, Maria do Amparo, as três marias iluminavam a casa, abrilhantavam o vilarejo e aqueciam o coração de D. Joana, do pai, seu João, e de seus maridos. Havia também o filho varão, Vicente, como o santo que fora exemplo de fé e força.
              Em 1939 D. Joana e seu João tiveram uma bela surpresa. Foram abençoados com uma gravidez, fato que nos dias de hoje nem sempre é considerado bom, então fiquem atentos à história, jovens e tentem aprender algo. Meses depois veio ao mundo a quarta maria. Maria Salomé Rocha e seus olhos castanhos amendoados vieram encantar a família toda no primeiro mês de 1940.
              Durante alguns anos, Mézinha foi princesinha, alegria da casa humilde, porém aconchegante e afetuosa. Mas os dias passam e o mundo nem sempre gira a nosso favor, mesmo isso sendo absurdamente cruel quando se trata de uma criança. D. Joana veio a falecer deixando sua pequena com o pai. Roga o ditado que pai é pai, não é padrasto, mas pai nunca vai ser mãe. Seu João era um trabalhador, desses que saem antes do sol nascer e só voltam após o poente, e por mais amoroso que fosse logo precisaria de uma companheira para cuidar de si, de sua filha e seus interesses.
              Como suposto, seu João arrumou uma esposa, que definitivamente não assumiu o papel de mãe da nossa estrelinha. A malvada, como Mézinha apelidou a mulher, não precisa de muitas outras apresentações. Era madrasta de corpo, alma e prefixo. Bastou que seu João tivesse um derrame e ficasse debilitado para que a Malvada começasse a explorar Mézinha. A mulher não tinha carinho nem respeito pela pequena e a fazia de empregada da casa, serviço árduo quando nem se completou oito anos de idade. Ao contrário das histórias encantadas nenhuma fada apareceu para salvar a menina. A única novidade que o vento trouxe foi uma ira extra que fez a mulher de seu pai expulsa-la de sua casa.  O fato é que a constelação já estava completa e nossa pequenina não poderia brilhar, não tão cedo.
              Sozinha pela galáxia, Mézinha começou a trabalhar em várias residências como doméstica e babá para tirar seu sustento e assim foi até seus 13 anos, quando mudo-se para a cidade de Santa Amélia para trabalhar na casa de sua irmã Dola, Maria Dolores, em troca de abrigo. O poeta que reclamava que na cidadezinha qualquer a vida era besta e as janelas olhavam, provavelmente não conhecia a vida de Mézinha, a infância e os sonhos surrupiados, os maltratos, o abandono, o descaso. A inocência da menina dos longos cabelos negros e cacheados que tinha nome bíblico e já vivia seu martírio tão jovem.
               Agarrada a sua fé, Mézinha passou mais dois anos de trabalho duro porém costumeiro, sabendo que as coisas já estiveram piores mas encontrando-se distante de seus sonhos. Mal sabia que a sorte estava a seu favor a partir dali. Ao completar 15 anos fez-se bela moça e em uma tarde assustadoramente comum, numa de suas rotineiras visitas ao armazém de Secos e Molhados, conheceu o jovem e bonito príncipe, digo, gerente, Nelson. Um italianinho magro, de bigode fino e olhos claros.
               Então Mézinha brilhou. Brilhou como se fosse o primeiro raio de sol a tocar a terra após a criação. Ofuscou o jovem, que sentia poder passear pelo seu olhar pelo resto da vida. Mas Nelson não a convidou para sair, não pediu para ficar com ela, nem a chamou de “sua linda” – Eram outros tempos, crianças.
               No auge de seus 20 anos, chapéu de feltro e calça combinando e cara de galã de filme de época, aguardava ansioso pelas visitas da moça, que parecia flutuar pelas ruas cinzas da pequena cidade. Quando chegava, a moça trazia em tese apenas os anseios alimentícios da família de sua irmã, mas para o moço, trazia o universo.
              Ao som do rádio cantarolava com Silvio Caldas: ”A Deusa da minha rua tem os olhos onde a lua,/Costuma se embriagar, / Nos seus olhos eu suponho que o sol num dourado sonho, / Vai claridade buscar...”
              Mézinha entregava a lista de compras com um sorriso tímido, Nelson com toda postura e charme dava a lista ao empregado e pedia para a moça aguardar. Com o tempo começaram a conversar sobre aquelas aleatoriedades que transpõem gerações:
              – E esse tempo, hein? - Observava o rapaz.
              – Pois é, com essa chuva a roupa não seca. - Completava, tímida.
              – Terrível! – Arrematava vovô.
              Não sei exatamente quando a resposta dele deixou de ser uma afirmação retórica e passou a ser um gracejo:
              – Então gastas essas più bellas mãozinhas lavando roupas?
              Mézinha começou a contar suas desventuras para o italiano atencioso e doce, que dava-lhe um sorriso-ergue-bigode que valia o dia, a semana, a existência. Ela definitivamente não estava acostumada com tanto carinho.
              Durante um ano inteiro Nelson aguardava a visita da moça para oferecer sua paquera elaborada e aguardava sua saída para cantar alto acenando com o chapéu: ”Minha rua é sem graça, / Mas quando por ela passa, /Teu vulto que me seduz, / A ruazinha modesta, / É uma paisagem de festa, / É uma cascata de luz!”.
              Casaram-se. – Ninguém resiste a Silvio Caldas.  Mézinha virou a senhora Maria Salomé Inforzato. O jovem, filho de imigrantes, tratava a moça como uma verdadeira princesa. Cuidava dela como ninguém há muito o fazia, causando-lhe a mais profunda admiração. Nelson tornara-se um homem completo, o mais feliz dos que conheci. Foram morar em um "ninho de amor" alugado até que a sua própria casa fosse construída no terreno que o rapaz ganhara do pai. Logo o marido dedicado tornaria-se sócio do armazém e de um pequeno cinema.
              Nelson trabalhava no armazém, Mézinha na tabacaria do cinema. Esforçavam-se, mas valia muito a pena, principalmente porque logo vieram os frutos de seu amor: Zuleide, Valentim, Eloiza e Rose que ficavam no cinema comendo balas e assistindo aos filmes do Tarzan e Mazaroppi. Tinham construído uma família firmada no amor e no respeito e isso era a maior recompensa que podiam receber. Quando tinha um tempinho, nossa heroína ficava no cinema vendo os contos de fadas. A tela gigante reproduzia as desventuras que sofrera e ela, que sentia-se especialmente satisfeita de ter alcançado a felicidade sem fada alguma, via, ali na sala escura, como venceu o universo que nunca conspirava a seu favor. Na película e nas risadas de suas crianças conferia a realização de sonhos que nem ousou ter. Era brasileira, era mulher, era estrela, era mãe, era Maria, rainha de seu lar.
              A história poderia acabar nessa epifania, mas então não chegaríamos a contar que Paulinho nasceu para provocar o ciúme da irmã mais velha, que juro, queria dar o menino para os ciganos. De qualquer forma não chegaremos nessa parte. O fato é que Mézinha não vivia em um romance inglês e sua história não acabou aqui. Sua história segue por aventuras e decepções, coragem para recomeçar ao lado de seu amado durante muitos anos. Passa por suas bodas de ouro, por seus netos e bisnetos. Continua por cada comida feita com carinho, cada bronca e cada cafezinho. Sua história é a fé que trouxe de criança até a novena que fez há pouco para eu arranjar outro emprego. (Funcionou!). Sua história é a minha sendo germinada naquele armazém há mais de meio século atrás. Sua história sou eu.
                                                                                                                                                                                                                                                                                  (coautoria com Kakal Ragazzi)
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12  Doce Visita

Abre as janelas, curioso,
por sutil suspeita de visita.
A brisa perfumada foi dica.
O beija-flor bailando, bela pista.

O sol, gentil e brando,
iluminando pequeno coral.
Passarinhos animados,
Celebrando a breve vinda,
pelo pólen anunciada.

A rosa semi-aberta.
Passarinhos em cantata.
Borboletas bailarinas.
Abelhinhas acrobatas.

E o espetáculo se completa,
no primeiro desabrochar.
Pezinhos descalços pela grama
correm para lhe encontrar.
E saudar suas cores, suas flores, seu cheiro.
Chamá-la de prima, e fazer rima.